sábado

PT281+ Idanha-a-Nova a Lentiscais


Estamos prontinhos para partir para mais uma etapa e não é uma etapa qualquer. São quase 50km que incluem o tão badalado e temido Vale da Morte, uma extensão de muitos km sem localidades e sem qualquer ponto de água.

Outro ritual em cada inicio de etapa que tinha e que ainda não mencionei era antes de arrancar e perguntar a um elemento da organização sobre eventuais pontos de água, localidades e cafés que iriamos encontrar por caminho. Desta vez não foi excepção e fiquei a saber que por volta do km 15 noas haveria de aparecer uma localidade com um café que abria às 6h da manhã. É a última hipotese de abastecimento antes de Lentiscais.

Ainda antes de partir fui ter com o Jorge Bastos que tinha chegado, estava a fazer gelo no gémeo e ia tentar dormir um pouco para ver se se dava algum milagre. Desejei-lhei as melhoras ... não sei o que se pode dizer muito mais numa situação assim. Foi azar.

Eram sensivelmente 4 da manhã quando colocamos os pés ao caminho depois de respirar duas ou trés vezes bem fundo. A Pikinita ia dormir para o carro.

Os primeiros 15 km são praticamente sempre em alcatrão por estradas ligeiramente onduladas, que rasgam campos enormes de cultivo. As vistas alcançam horizontes longissimos e tivemos mais uma vez direito a um nascer do dia esplendido, cheio de cores que eu adoro ... o amarelho da palha seca, os verdes dos cultivos, o lusco-fusco do nascer do dia, os alaranjados e vermelhos do sol a nascer, depois o azul do céu limpo ... os sons dos animais misturam-se com o tilintar das pontas dos bastões a bater no alcatrão ... para quem gosta de apreciar estes pormenores é um carregar de energia melhor que qualquer gel nos pode dar.







Como em quase todas as etapas, inicialmente caminhas um pouco ... os pés cheios de bolhas e com os dedos muito massacrados e pisados demoram algum tempo a „acamar-se“ dentro das sapatilhas, depois habituamo-nos e a coisa lá se vai aguentando melhor ou pior conforme os pisos onde vamos passando e tb conforme a tua disposição do momento. O mesmo se passa com as pernas, que depois de „desenferrujar“ durante alguns minutos a caminhar depois já nos permitem meter uns trotes pelo meio. E é isso que fazemos ... continuamos fielmente a usar a táctico do correr (leia-se „trote ligeiro“ com tanto km nas pernas) nas descidas e planos e caminhar mal o percurso incline, por mais pequena que seja a inclinação.



E chegamos ao Ladroeiro, a tal última localidade antes do Inferno. Não tenho grande registo dos nomes das localidades por onde passamos porque nesta zona do país não usam as placas à entrada e saída das terriolas ... podia ir ver no google maps mas não me apetece. Desta lembro-me porque a senhora do café me disse e fixei. Por falar em café, este ficava uns bons 500m fora do percurso, mas nem hesitamos em fazer este km extra. Tinha receio do que aí vinha, a hidratação para mim tem prioridade máxima e havia já flasks para encher ao fim das primeiras 3h de hoje. Enquanto fui dentro do café pedir o que queriamos o Lima ficou sentado numa mesa cá fora ... devo ter demorado uns 5min ... lá estava ele sentadinho de cabeça tombada a bater uma soneca ... ele ainda não tinha dormido até esta altura – preferiu comer – estratégias e prioridades de cada um.

Praticamente aos 22km saimos de estrada e entramos nos estradões em terra para enfrentar então o tal Vale da Morte. Seriam umas 8 da manhã e as temperaturas já estavam bem altas, não sei quanto mas com certeza que 30 graus deveriam estar. E em poucos minutos a coisa aquecia ainda mais com a agravamente do sol também aparecer em força. 



Tínhamos conseguido fugir a parte desta etapa com o fresquinho da manhã, a intenção era conseguir passar estes próximos km durante o resto da manhã. Iriamos conseguir em parte ... lembram-se da etapa para Penha Garcia que nos deu uma coça daquelas? ... esta parte foi um déjà-vu ... calor extremo, líquidos tipo sopa, boca seca, lábios gretados ... sombras praticamente não existem ... campos e mais campos de se perder de vista, animais de pasto e nós ali no meio cada vez mais cansados a levar coça a cada passo. 


Mas houve uma diferença enorme para a etapa de Penha Garcia ... nunca entrei na parte de „Gru-Maldisposto“, por mais murros que tenha levado, por mais vezes que tenha tido que parar para tentar meter ar nos pulmões e descansar as pernas que latejavam por todo o lado nunca nesta etapa desmotivei. Houve partes em que fiquei impaciente por olhar para o relógio e os km não passarem, isso sim.



Ainda vimos um sistema de rega a funcionar num campo vedado ... o Lima disse „csa foda, vamos saltar a vedação e vamos lá“ ... mas eu, ajuizado lá o convenci a seguir caminho.

Não sei quantos km tinhamos quando vimos um sujeito que estava a filmar para a organização. Disse-nos estar ali desde as 7h30 da manhã ... seriam perto do meio-dia ... tb nos disse que ainda vinha muita gente atrás de nós e quando lhe perguntei quanto faltava para Lentiscais disse que mais ou menos 3 ou 4km. Ganhei animo ...

Mas enganou-se ... 3 ou 4km deve ser para ele de carro. Para nós foram uns 7 ou 8 que fazem toda a diferença, ainda por cima tivemos que subir e descer dois montes expostos ao sol. 

Nesta etapa chegamos ao 200km


estes pequenos gestos dão cá uma força

Na primeira subida o Lima ia uns 100m à minha frente ... do lado esquerdo num vale uma floresta ... diz ele „o abastecimento é ali em baixo ... estão ali as tendas“ ... eu olhava e olhava e não via absolutamente nada. Zero. Mas se ele estava a ver ... „onde caralho?“ ... „ali, não vês os carros“ ... foda-se, eu devo estar mesmo mal, eu vejo mal é ao perto, ao longe ainda me desenrasco ... mas queria acreditar que sim, e ele não estava a brincar, falava de forma convicta. No fim da subida paramos à sombra de uma árvore e sentei-me um pouco para meter um gel. O meu xixizinho estava amarelo escuro e dos 4,5ltr iniciais + 1,5ltr repostos no café há 25km atrás já apenas restava um meio flask de 500ml na frente e um flasks inteiro de „sopa“ guardado religiosamente atrás para qualquer eventualidade.

Foi ali que o Nuno me disse muito admirado „eu podia jurar que vi ali as tendas“ ... alucinou de certeza, infelizmente ainda iriamos ter que andar um bom bocado.

Dali já se avistava Lentiscais no alto, mas para lá chegar teríamos que descer um vale e voltar a subir um monte. E continuavamos expostos a um sol e a uma temperatura infernal.

Neste pequeno troço de descer o vale (talvez 1,5km) chegaram os Anjos da Guarda ... primeiro um jipe da organização que nos deu Coca Cola e Água fresca (2 flasks devem chegar) e uns minutos depois passa o Borges com o Miguel Angel que nos deram mais água fresca e me molharam o chapéu em água gelada ... aqueles pingos frios a bater na nuca foram como que um despertador a tirar-nos do sono mais profundo ...

„Está quase“ ... o BA não é em Lentiscais é mais abaixo junto à praia fluvial. Para subir para Lentiscais é uma rampa de quase 1km. O Nuno subiu tudo de uma assentada, eu vi um muro em pedra com uma árvore a fazer sombra e corria uma brisa muito ligeira e não resisti. Estive ali uns poucos minutos e tive que fazer um esforço para obrigar o meu corpo a levantar-se e a seguir ... ai o caralhe, mas afinal quem manda aqui.

olha-me estas … não queriam ir...


De Lentiscais até ao BA ainda foi um bom km sempre a descer. Chegamos por volta das 13h-13h30. Tinha previsto ficar aqui a descansar até às 17h para fugir a algumas horas de calor. Ia aproveitar para dormir um pouco, descansar bem para a próxima etapa até Vila Velha de Rodão.

Mas primeiro íamos comer e hidratar ... que bem tratados que fomos neste BA. Só faltou nos darem a comidinha na boca. Aliás, fomos sempre muito bem tratados em todos o BA em que estivemos, sempre prontos a ajudar e sempre de forma muito simpática.

Recebi a visita do Edgar Magro e da mulher, companheiro das escritas desta coisa dos blogues, que tendo familia pela zona fez questão de vir dar o seu apoio aqui à malta. É o que digo, é só gente boa e são gestos que nos enchem o coração. Obrigado.

Nós a começar a comer e o nosso manager/guru/coordenador técnico a chegar directamente do Alentejo. O grande Luis Lobo tinha chegado com os filhos para nos ajudar a chegar a Proença ... e quando digo ajudar, não é só com a presença e palavrinhas de incentivo, ele põe mesmo a mão na massa e não nos deixa beber as cervejas sozinhos 😊 ... ganda Luis, Eduardo e Bárbara 😊



Comi e bebi bem ... enquanto o fazia já estava a micar uma sombra debaixo de uma árvore para me esticar. „O Lima?“ ... sem dizer nada já estava esticado junto à entrada dos balneários a bater uma soneca.

Estiquei-me na dita sombra, maravilha ... vou tratar já dos pés e fico arrumado ... quando vou a tirar as meias um cenário de horror ... em ambos os pés ... bolhas por todo o lado com destaque para as dos calcanhares que iam de um lado ao outro ... tomei uma decisão que já tinha tomado há dois anos nos caminhos do Tejo. Coloquei as mesmas meias sem mexer muito, meti os pés dentro das sapatilhas ... „só vos tiro daí quando chegar à meta“.

Entretanto chegou a Pikinita tb ... disse-lhe para ir almoçar com o Lobo que eu ia dormir ... que no veríamos em Vila Velha de Rodão mais à noite. E pumbas ... dormi que nem um menino durante meia hora ... e porquê? O Lima queria arrancar já ... a malta toda estava a preparar-se para seguir caminho e começou a stressar ...  embora não estando muito pelos ajustes, lá concordei e comecei a preparar as coisas para seguir viagem ... confesso que foi a melhor opção.

Despedi-me da malta super simpática daquele abastecimento e estava na hora ... vamos até Vila Velha de Rodão?

6 comentários:

  1. Eu acredito que essas paisagens e esse nascer do sol devem dar um bom alento. Ou, quanto mais não seja, sempre são para uma pessoa se distrair...

    Não pude deixar de me rir na parte do "eu ajuizado"... Ahahahha! Se tu és o ajuizado dessa dupla, não sei não...

    A decisão de não mexer muito nas meias e nas bolhas pareceu-me sensata. Às vezes, custa mais voltar a meter os pés dentro dos ténis, pelo que mais vale deixar estar!

    Vamos lá, que já não falta tudo!

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    1. Ambas as duas tem a sua verdade …
      Eu posso não parecer mas até sou um gajo ajuizado, dependendo da perspectiva de cada um :)
      Aprendi isso de não mexer nos Caminhos do Tejo e como na altura funcionou desta vez apliquei a mesma fórmula … muitos anos a virar frangos :)
      Vamos ...

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  2. Vamos até Vila Velha de Rodão!

    Pois, essa miragem do Lima já devia ser da privação do sono.

    Não me canso de dizer, e por mais que digas que sou exagerado, a verdade é que são uns heróis!!!

    Grande abraço

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    1. Já podes ir até Rodão :)
      Deve ter sido .. que me lembre nunca alucinei, mas ouvi falar de outros, e neste caso parece-me ter sido o caso … é engraçado porque deve ser mesmo muito real pela forma como ele falava.
      Aquele abraço

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