Durante a contagem descrescente
para o tiro de partida, respirei bem fundo … é aquele momento em que dá o
último frio na espinha, acaba a ansiedade e começa o desafio … era como quando
jogava futebol, mal ouvia o apito inicial e a bola começava a rolar, esquecia
tudo e só contava o jogo.
“vamos caralho … é hoje…!” O arranque foi
tranquilo … partindo da box com a malta que tinha o mesmo objectivo que eu, não
houve grande confusão no inicio … apenas algum cuidado na primeira centena de
metros, pois saías da Plaza del Pilar para a marginal do rio Ebro e havia dois
cortes à direita … mal entramos na marginal houve espaço suficiente para todos
correr como bem apetecia ou podia.
O percurso da maratona de
Saragoza tem várias idas e voltas, entre o centro e vários pontos mais fora da
cidade. Este início tem ca. 2km para fora ao longo do rio e voltar …. para lá é
a favor do vento … a minha preocupação era não exagerar, entrar num ritmo
“tranquilo” e estabilizar o que não é difícil …. difícil é não te
entusiasmares, pois sentes-te bem e estás constantemente a ser ultrapassado,
mesmo a 4,25m/km … outra coisa que tenho que controlar, é ver a bandeira das 3h
a afastar-se aos poucos e poucos … eles vão a 4,15m … a estratégia para hoje é
uma primeira parte mais controlada e a segundo mais forte … tenho 8km para
fazer entre 4,20 e 4,25m/km.
Mal damos a volta à rotunda para
regressar à zona de onde partimos levamos imediatamente com um vento de frente
… e começa a “dança” de tentar te colocares atrás de alguém de forma a te
conseguires proteger um pouco desse vento. Começam a formar-se filas indianas …
consigo manter o ritmo estável com esforço extra e com a esperança que nos
troços mais dentro da cidade o vento não se faça sentir assim tão forte.
Quase 4km … voltamos a passar junta à Catedral do Pilar … 4,24m/Km de média … queria chegar aos 8km com uma média um pouco mais baixa …. o percurso agora segue junto ao rio mas na outra direção, em direcção ao Parque del Agua, zona onde no dia anterior levantamos os dorsais. Nesta fase já o pelotão se desfez … quem foi foi, que ficou ficou … e ao meu lado e no meu horizonte de visão somos no máximo uns 20 ou 30 … num espaço de uns 10 a 20m somos uns 3 ou 4 … uns 50m à frente um grupo talvez com 10 pessoas … um pouco mais à frente ainda vai outro grupo maior … continuo a levar com vento nas trombas e estou a conseguir baixar ligeiramente a média … “ideal ideal, era juntar-me a um daqueles grupos maiores” … e aumento um pouquinho o ritmo mas sem exagerar … a distancia encurta um bocadinho …
… aos 7km o primeiro gel (45g de
hc) … tenho dificuldades em manusear a embalagem, tenho as mãos frias … é que o
frio e a chuva não deram mesmo tréguas durante toda a prova … o meu plano
alimentar contempla beber em todos os postos e ingerir um gel de 45g de hc de 7 em 7
km …
… chego aos 8km finalmente
encostado a um dos grupos maiores … está feita a parte mais fácil da maratona …
4,21m/km de média … mais que dentro do plano, bem disposto e controlado … vamos
ver como corre agora o bloco de 24km ao ritmo da Maratona (4,12 a 4,15) … e
falta saber também que impacto vai ter o desgaste dos km com vento contra …
olhando para o meu registo km a km, tenho km a 4,14 e outros a 4,26, conforme a
favor ou contra o vento … a Maratona é uma prova em que ritmos constantes com
poucas oscilações são muito bem-vindos … isso não estou a conseguir … mas
sigaaa …
… aumento o ritmo e o corpo
responde bem … o problema é que o grupo vai um pouco mais lento … vou ter que
os deixar … e vou para a frente do grupo, que se parte … comigo vem mais uns 3
ou 4 … uns 50m à frente vai outro grupo … ainda vou precisar de uns bons 3 km
para os apanhar …
… o percurso agora vai em
direcção ao centro da cidade … avenidas largas … algum público, mesmo com a
chuva, e bastante entusiasta … os vídeos que vi mostravam ruas cheias … este
tempo afastou muita gente, e não os censuro …
Até aos 12km foi uma fase
tranquila … 4km à média de 4,15 … a média total baixou para 4,19m/km … o
problema é que já no centro da cidade apanhamos uma zona, em que os prédios
criavam uma espécie de canal de vento e era mesmo fodido (é a palavra certa,
peço desculpa) manter um ritmo vivo … esse km foi feito quase a 4,30 e com um
pulmão de fora … assim fica difícil … mas vamos manter a calma … aos 16km
mantinha a media em 4,19m/km …
Tinha conseguido encostar ao outro grupo … e agora íamos percorrer zonas mais do centro da cidade … aos 17 e 18km iriamos enfrentar uma subida … tinha lido que havia uma subida dura … mas o que é duro? Há uns anos fiz uma Maratona em Münster na Alemanha e falavam numa subida dura … quando lá cheguei, era um desnivelzito que quase nem dei por ela … mas aqui infelizmente a coisa foi bem dura … km 17 a 4,27 e km 18 a 4,20m/km com muito esforço e a média a não descer como devia …
Foi nesta altura que, pela
primeira vez, achei mesmo que talvez hoje não fosse dia para as sub 3h … mas
vamos até à meia-maratona e logo se vê … o grupo já se tinha voltado a partir …
eu tinha “fugido” com mais dois ou três na subida …. um rapaz ainda tentou meter conversa comigo, mas eu não o
consegui entender, eu acho que ele me estava a propor puxarmos um de cada vez …
não sei …
Nestes últimos km para chegar a
meio da prova, percorremos uns jardins, em parte com piso em terra … e com mais
algumas subidas que não seriam problema de maior se não fosse o vento, sempre o
vento …. depois do km mais rápido da prova até este momento a 4,11 fiz o km 20 a 4,29 e o km 21
a 4,27m/km … passo a meia com 1h32 (a ideia era passar com menos 1 minuto) e
decidi esquecer os sub 3h … vou-me concentrar em melhorar o meu recorde
pessoal.
Estou com 4,21/m de média … e
plenamente convencido que uma 2ª parte neste ritmo não será problema. Um tempo
ali nas 3h04 é bem bom, e deixa margem para um eventual desgaste nos km finais
… e fiquei super tranquilo com a decisão, aliviado até.
Até aqui o desfasamento entre as
placas com a distância percorrida nas bermas da estrada e a distância que o meu
relógio indicava, andavam entre os 100-150m, dependendo das placas …. são uns 30
a 40 segundos … tinha mais que margem …
Aproveitando umas descidas, umas
avenidas no centro com vento nas costas e algum público entusiasmante faço 3km
bastante rápidos (4,15, 4,06, 4,09) …
Nesta fase andamos pelo centro da
cidade e havia ruas que criavam o tal canal de vento que de frente era terrivel
… e o ritmo voltava a subir de forma drástica … km 26 em 4,32min e o 27 em 4,30 … mal apanhava
o vento nas costas era um alivio … km 28 em 4,07m … km 29 a 4,30 e km 30 a 4,31…
conseguem imaginar o carrossel? Não estávamos
a subir e a descer ruas, o percurso era mais ou menos plano, a diferença era o
vento. A chuva tb não dava abébias … mas já não importava nada … estava
encharcado e estava …
Acabo o segundo segmento do meu
plano aos 32km … fiz os últimos 24 numa média de 4,20m/km e a média total era
de 4,21m/km … faltavam sensivelmente 10km e continuava com uma muito boa margem
para um RP tranquilo.
Voltamos ao mesmo troço que
fizemos no inicio junto ao rio Ebro … ida e volta … para lá com o vento nas costas
e para cá com vento nas trombas … mas corre bem … 3km a 4,24 … é uma fase em
que começo a passar muita gente em dificuldade, mas curiosamente tb sou
ultrapassado por muita gente que está a fazer a técnica do “negative split” como
deve ser…
… começo a sentir os músculos das coxas bastante
pesados, mas pior estavam os tendões de Aquiles e gémeos … estes problemas apareceram
rapidamente, a partir do km 35 começaram a prender … isto é perfeitamente
normal e não havia problema nenhum, reduzi um pouco o ritmo para me sentir mais
confortável. Foi aos 35k que tomei o meu último gel …. cumpri o plano escrupulosamente
e acho que funcionou bem.
Km 35, 36 e 37 numa média de 4,32
… tinha feito umas contas de cabeça e mantendo este ritmo chegaria
perfeitamente nas 3h05 já a contar com os 100 a 150m a mais em relação às placas
oficiais da prova.
“a placa dos 38km nunca mais
aparece??? … se calhar não a vi” … mas ali estava ela, e quando lá cheguei o
meu relógio mostrava 38,4km … mas o que aconteceu aqui? … como é que passo de 150
para 400m de diferença …, deve estar fora do sitio, só pode … é que se não está,
estou fodido … é que 400m são quase 2 min … tento reagir … mas o próximo 1,5km
são a subir ligeiramente e com vento de frente … a placa do km 39 confirma a
diferença que agora está em 440m … com grande esforço consegui fazer 4,27 neste
último km… mas vou abaixo … não vai dar …
… mais um retorno, o último .. no km 40 mantenho os 440m de diferença… agora são 2km até à meta …. “e se as placas no fim acertarem esta diferença?” … nunca se sabe … animei um pouco e aproveitei a descida e o muito publico para voltar a acelerar … a placa do 41 km mantinha a diferença os 450m … tinha feito este km a 4,30 … e vendo ao fundo a cúpula da catedral onde estava a meta, acelerei o máximo que consegui … lembro-me de olhar para o relógio e ir a 3,45 …. um pouco mais à frente o meu relógio bate nas 3h06 e tive a confirmação de que não ia dar … placa dos 42km …. Curva à esquerda para entrar na recta da meta … já ia a trote, não valia a pena …
… cortei a meta com um misto de
sentimentos … estava feita a minha 21ª Maratona de estrada o que era um bom, mas não foi assim
que eu tinha sonhado cortar a meta … as fotos de chegada mostram bem o meu
estado de alma … estava fodido … e isso estava a sobrepor-se à alegria de acabar uma maratona ...
O speaker deu-me um high-five,
chamou-me qualquer coisa tipo “herói”, recebi a medalha, o saquinho com as
cenas e fui-me sentar num banco de pedra, à chuva, coloquei a minha melhor cara
e liguei à Dora … tentei disfarçar o melhor que pude o desalento … acho que não
consegui.
A chamada foi rápida … comecei a
ficar com muito frio e fugi para o hotel … batia o dente que não era brinquedo,
bastaram poucos minutos para ficar neste estado … a senhora de recepção disse algo
tipo “já acabou?” … que confiança em mim ☹ … lol … só faltava perguntar se tinha cortado
caminho … não lhe dei muita confiança, não estava para aí virado e estava a
tremer de frio por todos os lados … nada que um bom banho quente não resolvesse….
o banho tb ajudou a que refletisse um pouco na Maratona que tinha acabado de
fazer e ajudou a acalmar um bocadinho a alma…
Passei a tarde na cama … lá fora continuava
a ouvir o som do speaker a receber os atletas … a minha janela não dava para a praça,
acho que tb não iria querer ver chegadas …
Eu tenho uma característica boa …
os azeites passam-me rápido e sigo a camioneta.
A verdade é que fiz a minha melhor
maratona de sempre, mesmo não tendo sido o meu melhor tempo. A verdade é que as
condições climatéricas estavam terríveis, e o speaker acaba por ter
alguma razão … “herói” é exagerado, mas guerreiro fui, fui mesmo … hoje, passado
estes dias todos, acho que poderia ter dado mais um bocadinho depois do km 35, confiei
e resguardei-me um pouco, dei o rp como adquirido e quando fui surpreendido já
não consegui reagir. Foi pena … não entro nestas cenas de merecimento …
treinei bem, fiz tudo o que deveria e a Maratona foi justa, como sempre é. Quem
andou a gozar comigo foi o S.Pedro … esse sim, lixou-me … azar!!! Não sei se
conseguiria baixar as 3h … talvez não … mas teria dado mais luta … ou não,
nunca saberei😉
As feridas estão lambidas …
quanto mais tempo passa, mais certo estou que fiz uma grande prova … faltou o
resultado, e no fim de contas é esse que conta porque foi isso que fui procurar
e não encontrei … desta vez … porque isto não fica assim.
Agora vou recuperar bem, e fazer
outras coisas na corrida que gosto … trail por exemplo …
Mais uma vez muito obrigado a
todos que durante estes meses todos torceram por mim.
Obrigado ao João por me colocar numa
forma do caralho … mas está lixado com o atleta … para já não lhe tem dado
nenhuma alegria. Mas ainda vou dar … escrevam…
Doritos … tu sabes 😊
E assim acaba a saga da maratona
de Saragoza … mas não acaba a saga das sub 3h … o meu amigo Luis Trigo enviou-me uma mensagem em que entre outras coisas me relembrou “eu baixei as 3h aos 59 anos” …. Velhos são os
trapos …









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