quinta-feira

UTDP 2019 como roadie




Eu sei que já chateia de tanto UTDP, mas é a última, juro J … falta registar no meu tasco o que eu senti por ficar de fora da prova, o que senti a acompanhar a prova e claro a minha opinião sobre a mesma.
Não é difícil de imaginar que o facto de não poder correr no domingo passado foi tudo menos fácil de digerir. Numa situação normal tenho a certeza que não teria sido grande problema, provas há muitas, mas com a Pikinita enfiada na aventura a coisa foi diferente.
Na 3ª tinha ido experimentar correr e ao contrário do que pensava a coisa não correu bem – aí tive quase a certeza que não ia conseguir recuperar a tempo e andei com os azeites 3ª e 4ª- não esteve fácil de me aturar. Fiz mais dois tratamentos e voltei a testar no sábado mas já sem grandes esperanças. Confirmou-se – estava fora do UTDP.
Quando vi a Pikinita a partir no domingo fiquei de coração apertado – fui tomar um café e depois aqueles 300m até ao carro não foram nada agradáveis. Era um misto de preocupação e revolta com o azar que me tinha batido à porta. 
controle para a prova

A caminho de Marcelim vi um nascer do sol lindo, parei para ir ver as vistas e registar o momento com uma foto. Foi fácil e rápido lá chegar. Cumpri um ritual que iria repetir em todos os pontos de abastecimento – ver onde estava instalado o PA, dar uma volta a pé para conhecer a zona e instalar-me num sítio onde pudesse ver a malta a chegar. 

Em Mercelim foi sentado nuns pedregulhos enormes, arredondados com umas vistas esplendorosas. Estive bastante tempo à espera … vi os pastores a sair com as cabritas para o monte, um velhote com duas vacas e entretanto passa o Ricardo Silva, já com um avanço enorme em relação ao segundo. Iria vencer com mais de uma hora de vantagem.




A partir daqui lá começavam a passar os atletas, cada um ao seu nível … a todos disse “bom dia”, “força” ou “boa prova”, para os que conhecia havia sempre um incentivo à Pernetas tipo “o que andas aí a fazer meu menino” ou “tá lento” ou ainda “cá gajo feio” J … e à medida que o tempo passava a ansiedade em ver a Pikinita aumentava … e mais quando passaram os que eu achava que seriam mais ou menos do nível dela e nem sinal dela. Finalmente lá a vejo ao fundo … está bastante atrasada para o que eu esperava … vi logo que a coisa não estava fácil de gerir, e não era fisicamente. Como sou meio palhaço, lá fiz das tripas coração para a animar … dei-lhe uma mistura de sais na água e siga … não há tempo a perder. E ela seguiu caminho.
Eu voltei para o carro … procurar no GPS o próximo PA … S.Pedro … o do carro não encontra, o Google Maps também não … sei em que sentido vão os atletas, sei que não pode ser longe porque só vão fazer 5km e como quem tem boca vai a Roma paro no primeiro café que encontro na estrada … uma velhota dá-me as indicações que preciso e facilmente lá chego. E começa tudo de novo, procurar um sitio onde esperar, blá, blá, blá
S.Pedro

Foi assim o dia todo, depois de S.Pedro foi Bustelo, depois Tendais de onde segui para as Portas de Montemuro, seguiu-se Covelas antes de voltar a Cinfães onde cheguei seria já depois das 20 horas. Faltou-me Pias, 3 km antes da meta – mas como sabem a Pikinita não chegou lá.


Bustelo

em Bustelo vi a Rainha de Inglaterra … um dos pontos altos do dia 

Tendais

O grande Silvério nos seus famosos mergulhos refrescantes

Portas de Montemuro

Foram muitas horas pelas serras de forma diferente do habitual, mas igualmente interessante. Deu-me a possibilidade de sentir a prova de uma forma como nunca o tinha feito – de fora. O objectivo era acompanhar de perto a prova da minha Pikinita, mas acompanhei também as lutas de muitos outros atletas, especialmente da segunda metade do pelotão. Os primeiros vi-os apenas no primeiro PA, depois nunca mais. O resto da malta teve que levar comigo durante todo o dia.

Foi sem dúvida uma experiência enriquecedora … 16 horas na serra, muitas horas de espera? Devem pensar que foi uma seca mas acreditem que não foi. Tive momentos de ansiedade no primeiro PA ou no das Portas porque a Pikinita nunca mais aparecia. Senti as dores de muitos e tentava com uma palavrinha ou uma piada aliviar um pouco as frustrações do momento. Conheci outros como eu, poucos, duas mulheres que acompanhavam os respectivos maridos e um grupo de 3 pessoas mais idosas que não arredavam pé a dar força a um filho/sobrinho – conheci também muitos dos voluntários, jovens daquelas terras, bombeiros e policias. 

Sinto que tenho autoridade para avaliar esta prova, também sei que sou suspeito, afinal a minha mulher andou lá. Deixei passar uns dias, troquei impressões com pessoas que participaram, esperei que a organização se explicasse na página oficial, vi os comentários dos que participaram e tive a certeza que o que vi vi bem.
Como puderam ver do meu primeiro artigo sobre a UTDP e depois pelo relato de dentro da prova da Dora as coisas não correram nada bem. 
Pelo que li e ouvi, todas as distâncias menores (não estou a ser depreciativo) correram muito bem. As pessoas adoraram os percursos, os abastecimentos, as marcações impecáveis, o pessoal voluntário … excelente. Parece ter havido alguns que não tiveram direito a camisolas mas a organização diz que as irá enviar por correio. Os elogios são mais que muitos e sendo assim estão de parabéns por isso.

O mesmo não se pode dizer da prova grande, a prova rainha, em que os erros cometidos foram demasiados e alguns bem graves. Até Bustelo aos 25km a coisa correu lindamente, e mesmo até ao corte de Tendais, embora a distância já estivesse a dar a mais, a organização reagiu de pronto e aumentou o tempo de barragem numa hora. Perfeito até aqui. Os atletas chegavam já bem cansados da coça que estavam a levar mas ao mesmo tempo maravilhados com o percurso e cheios de vontade em continuar. O PA tinha massa com carne o que era excelente para reporem energias para enfrentar a etapa mais longa e provavelmente mais dura do percurso – 17km e mais de 1000D+, com uma descida muito difícil pelo meio – isto nas primeiras horas da tarde. Quando a Pikinita partiu eu sabia que só a iria ver daqui a 4 horas, se tudo corresse bem.
Passei várias horas no PA das Portas de Montemuro … quando lá cheguei tirei um tempo para mim, estava na hora de almoçar. Tinha comprado pão, queijo, presunto e batatas fritas. O tempo tinha mudado, estava encoberto e com o vento até ficava frio para quem estivesse parado. Estava num alto a uns bons 200m do PA … vi alguns atletas a chegar a barafustar e a deitarem-se no chão, isto ao longe. Decidi fazer meia dúzia de sandes de presunto com queijo para os meus amigos em prova, caso quisessem e fui para mais perto do PA ver a malta a chegar – mal sabia eu que iria distribuir as sandes todas, iria voltar ao carro, fazer outra sacada de sandes para distribuir – e mais houvesse. 
a mala do meu carro foi a cozinha improvisada

Percebi o desagrado mal olhei para a mesa … um abastecimento normal mas não para uma prova destas, especialmente depois de uma etapa como esta. Tostas, batatas-fritas, tomate, sal, melancia e pouco mais – nada de verdadeiramente consistente, muito menos algo quente tipo sopa, caldo. A maior parte dos atletas tinham 10 horas e 3500mD+ nas pernas caraças.
Os atletas chegavam a conta-gotas, muito cansados, a maioria desidratados. Todos estavam chateados pelo engano nas distâncias e pelo facto de o PA estar quase 4km mais à frente do que anunciado. A etapa era dura, não tinha pontos de água pelo caminho,  estiveram a gerir água … muitos tinham bebido a água que tinham até aos 51km onde segundo o mapa impresso no dorsal estaria o PA … tiveram que fazer mais 4km, a subir, para voltar a ter água. E tiveram sorte – se o tempo não tivesse encoberto e o sol aparecesse com força como por volta do meio-dia ia haver problemas graves – não tenho dúvidas disso.
Agora chegavam ali e deparavam-se com um abastecimento daqueles, pobre – se já estavam chateados facilmente imaginam que não ficaram mais bem dispostos. Para cúmulo estavam com dúvidas sobre os km que faltavam que ninguém ali conseguia responder … quantos km são até ao fim? Estes km a mais são agora compensados? Os tempos limite mantêm-se? 
Coitadas das duas miúdas que estavam naquele abastecimento, ao abandono no alto da serra, a levar com os queixumes todos. Houve pelo menos dois atletas que desistiram ali por estarem fartos da bagunça … não por falta de pernas … estavam bem dentro do tempo para acabar a prova mas estavam chateados. Um deles virou-se para mim “parabéns pelo percurso, é lindíssimo, mas em relação à organização vocês são uma vergonha” … fui confundido como alguém da organização, não iria ser o único a fazer essa confusão e tive que ouvir alguns impropérios. Compreendo porque me viam em todos os PA e tinha o casaco do CAL vestido, que é preto, tal como as camisolas do STAFF da prova. 

Depois da Pikinita partir das Portas de Montemuro segui para Covelas onde haveria de acontecer a barragem por tempo de muita gente. PA supostamente aos 64km e que estava efectivamente quase aos 70km. Conseguem imaginar como vinha a malta, sentiam-se injustiçados e o cansaço tb não ajuda nestas situações … os 3 jovens que estavam no abastecimento ouviram de tudo – depois de deitarem cá para fora o que lhes ia na alma, quase todos acalmavam e pediam de desculpa, afinal a rapaziada não tinha culpa. Faltam 11km para a meta – era a única informação que sabiam dar – tempos de corte? Não sabiam. Como é o terreno? Não sabiam, só sabiam que havia rio.
Uma montanha de bombeiros assistia a estas cenas um pouco afastados, meios escondidos atrás das ambulâncias e jipes ali estacionados. Chega alguém que parece ser da organização numa Pick-Up para vir buscar dois que tinham desistido … pergunta aos atletas se sabem quantos ainda vem atrás. Eu pergunto se não há vassouras – “haver há, mas não conseguimos contactar, não há rede na serra”. Nem queria acreditar no que estava a ouvir – se algo acontecer como fazem? Com a pressa que chegou também arrancou.
Havia gente a desistir ali – ainda avisei os voluntários para tirarem os chips e os nrs.do dorsal a esse pessoal, para avisar a lap2go que estava a fazer a cronometragem destas desistências. Se não o fizessem no fim iam ter que andar à procura destes atletas – já nos aconteceu nos Pernetas, felizmente conosco estavam já em casa, refastelados.
Eram 19.20h quando um voluntário cheio de receio vem informar os atletas que ali estão que estão barrados, que não podem seguir. Houve meia dúzia que disse que nem que fosse até à meia-noite, iam acabar aquilo. Fica-me na retina uma rapariga algarvia, estava fora de si a dizer que não tinha vindo do Algarve para isto, muito menos depois de tantas falhas que não eram culpa dela. A maior parte continuou.
Decidi ir ao encontro da Pikinita e vim com ela até ao PA. Depois levei-a de carro de volta a Cinfães – enquanto bebemos uma cerveja numa esplanada vimos a chegar todos os “teimosos” que tinham saído de Covelas fora de tempo e decidiram acabar a prova … e que bem feliz fiquei com isso, afinal acompanhei a luta deles durante 16 horas por aqueles serras maravilhosas e era um prémio mais que justo pelo que passaram.
Se tudo funcionou bem nas outras distâncias, nesta mais longa a avaliação para a organização é negativa. As opiniões dos participantes é unânime – o percurso é fantástico e o UTDP tem tudo para ter uma das melhores ultras em Portugal. Mas é preciso dar o apoio, a segurança que este tipo de provas exige.
Corrijam em 2020:
- informações claras e reais (distâncias, localização dos PA’s, tempos de barragem)
- presença durante o percurso Tendais a Portas - os atletas estiveram por sua conta
- presença de membros responsáveis pela organização com capacidade de decisão nos PA’s mais críticos (onde existem tempos de barragem)
- PA’s mais equilibrados (ponto de água entre Tendais e Portas, algo de mais sustento em Portas, sandes e sopa por exemplo)
- formação e informação ao pessoal dos abastecimentos para dar respostas concretas às dúvidas dos atletas
Ouvi gente a queixar-se dos tempos de barragem apertados, que é uma prova para prós. Efectivamente são tempos apertados – em condições normais não é fácil acabar esta prova – razões para isso existem com certeza, mas tenho para mim que não é para dificultar a vida a quem participa mas sim para acabar mais ou menos a tempo decentes – é domingo, é preciso regressar a casa ao fim do dia, muitos terão viagens ainda para fazer para chegar a casa. É por isso que a grande maioria deste tipo de provas é ao sábado. Mas isso está expresso no regulamento, quem se inscreve aceita as regras deste jogo e não se pode queixar. O mesmo se aplica a quem acha esta prova cara, esta ou outra qualquer … estão no livre direito de ir ou não, ninguém obriga. E volto a dizer, eu se conseguir vender algo a 10 não o vou vender a 5, ou vocês vendiam?
NOTA: estas criticas são para ser olhadas de forma constructiva, quem me conhece sabe que não sou do bota-abaixo, sei bem o que custa organizar uma prova e nem sequer nos posso comparar com algo tão grande como a UTPD. A organização está de parabéns pelas 1400 pessoas que conseguiram fazer felizes durante umas horas pelos percursos mais curtos. Faltou tratar igualmente bem as 100 que estiveram na prova mais longa, confesso que não esperava isto vindo de pessoas tão experientes e ainda por cima atletas que sabem o que é importante – o pedido de desculpa oficial feito esta semana só fica bem – reconhecer que falharam é o primeiro passo para corrigir os erros e fazer em 2020 uma edição perfeita para todos. Só não falha quem nada faz. 

4 comentários:

  1. Penso não ter muito mais a escrever do que já escrevi antes.

    As mazelas fazem parte de quem está vivo mas são mesmo um aborrecimento e algumas bem mais que outras.

    Saouberam dar uma boa volta á questão, embora não fosse a ideal, claro.

    Análise lúcida e construtiva, e é isto.

    Grande abraço

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    1. Entretanto a organização reagiu a este post de uma forma bem construtiva. Gostei. Para o ano será com certeza melhor para todos.
      Aquele abraço

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  2. Sem dúvida que é uma critica muito construtiva e que irá ajudar a organização a rectificar o que esteve muito mal! Parabéns!

    Já estive na posição de roadie e é uma experiência enriquecedor, divertida e onde o tempo é muito bem empregue. O único momento difícil é a partida, quando vemos todos arrancarem e ficarmos ali. Esse é o momento glup...

    Um abraço e boa recuperação

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    1. Disseste tudo :) … quanto à organização já veio reconhecer os erros e ficou a promessa de os corrigir em 2020. Se assim for todos ficaremos a ganhar :)
      Aquele abraço

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