A
Maratona do Porto é a minha prova preferida – não me canso de o dizer – porque
é muito mais do que apenas correr a distância mítica, já engloba algumas tradições e um convívio com um monte cada vez maior de
amigos, inicia sábado de manhã e só acaba no domingo ao fim da tarde.
Sobre este antes e depois ainda faço uma posta à parte porque merece. Hoje vou
chatear-vos apenas com a minha prova em si o que já dá um testamento daqueles J.
Faltavam
apenas 5 minutos para o tiro de partida quando a malta do CAL chegou à Rotunda
da Anémona – e não foi por chegar tarde – como sempre entre paleio com tudo e
todos que dão resposta (e os que não dão também), palhaçadas, fotografias,
café, largadas de javalis, mudança de água às azeitonas e até futeboladas
pré-Maratona (sim … aqui joga-se à bola uns minutos antes de correr uma
Maratona), quando se dá por ela já está o speaker a fazer a contagem
decrescente para a partida.

Desta
vez até nem correu mal … na Meia de Ovar o pelotão já levava 300m de vantagem
quando passei a meta, desta vez consegui partir no fim do Grupo B, mesmo tendo
dorsal para integrar o Grupo A. Só havia um stress para mim … tinha combinado
fazer a prova com o Silvio Horta (um colega blogger de Lisboa que se estreava
na Maratona e queria fazer 3h30) e antes da partida andamos completamente
desencontrados – quando eu estava no Queimodromo, ele estava na Anémona, quando
veio para cima eu fui ao café, voltou para baixo e eu estava no carro a
equipar-me … “estou no B, encontramo-nos depois durante a corrida” … pois …
Quase 3
minutos depois do tiro de partida lá passei juntamente com a malta do CAL o
pórtico de partida … “boa prova” e siga que se faz tarde pois amigo não empata
amigo … ainda não tinha feito 100m já se ouviam as primeiras palavras de
incentivo personalizadas do lado direito do público (BYL e Montemorrows ou lá
como se chamam - vocês estão cá dentro) … isto promete J
Que inkipinha de categoria
Vamos
lá entrar no ritmo … ali ia eu, com uma preparação atípica para uma Maratona à
procura de um balão que dissesse 3h30, para depois procurar o Silvio … mas
estava longe, muito longe.
A subir
a Av.da Boavista logo nos primeiros km já vou abaixo da média a recuperar
terreno para o tal balão … mas primeiro era preciso passar o das 4h30, depois o
das 4h15, depois o das 4h, o das 3h45 e finalmente ali estava ele o das 3h30 …
já levava uns 13km nas pernas quando cheguei perto … antes disso tinha andado a
encher chouriços na fronteira entre Porto e Matosinhos e ido ver o Porto de
Leixões até ao primeiro retorno.
… um pouco antes desse retorno vejo o Silvio
pela primeira vez – ia com o Rui Soeiro e levavam uma boa vantagem … não vai ser fácil apanha-los porque o ritmo
vai mais alto do que previsto e não convém exagerar muito mais. Não gosto muito desta fase
mas gostei do apoio que continuava a ter … dos incentivos constantes de fora e
dentro do pelotão … agradeço cada um deles. E gostei de passar a mítica marca
dos 11km … uma Maratona de Roma estava feita J … o ritmo estava já abaixo dos 4,50min/km e as sensações eram excelentes,
soltinho e pujante – nem sempre é assim logo ao início.

Passei
o dito balão das 3h30 no início da Avenida Brasil, já depois da separação entre
a malta da Maratona com a Family Race … isto de passar os balões é um desgaste
adicional grande. Junto dos balões, especialmente nos primeiros kms o
aglomerado de gente é enorme e as ruas estreitas para tanta gente. Só há
hipótese de ultrapassar por fora e a grande velocidade. E foi isso que fiz em
todos eles. O das 3h30 foi pela esquerda, entrando na faixa contrária, por fora
dos mecos (não me desclassifiquem por isso por fvr J).
A
táctica de ir à um pouco à frente do balão das 3h30 estava finalmente a ser
conseguida. Avenida Brasil, Marginal do Douro, Ponte Arrábida e pouco depois
Alfandega … os km passavam a bom ritmo, respiração impecavelmente controlada e
sem desgaste aparente. Mas havia um problema e não era pequeno …
Desde o
primeiro km que sentia uma dor um pouco acima do tornozelo direito, na lateral
interior. É uma dor conhecida nos tecidos moles, que já me obrigou a parar numa
Meia de Cortegaça aos 13km (em 2013 ou 2014 acho eu) e uns anos mais tarde me
obrigou a uma paragem de 1 mês na corrida. Ia preocupado porque apesar de
tentar ignorar a dor estava a intensificar – e estava muito longe, ainda
faltavam tantos km – cheguei a pensar que não ia conseguir acabar e que era uma
questão de tempo para me dar a fisgada final.
Nesta
fase já não há grandes aglomerados de corredores, tudo bem mais espaçado e
também não há grandes ultrapassagens pq os ritmos são constantes e acertados.
Mesmo assim ainda vou passando alguns porque continuo na busca do Silvio e do
Rui … 4,42min/km talvez seja demasiado rápido mas sinto-me bem apesar da dor no
tornozelo ter atingido a pior fase.
Descer
para as entranhas da Ribeira do Porto dá sempre um gozo enorme … mas hoje é com
cuidado redobrado … o empedrado está muito molhado e escorrega … um tralho ali
a descer não seria agradável. Aquele corredor antes da ponte D.Luis é um
espectáculo e a subida para o tabuleiro inferior da ponte é feito sem perder
ritmo e com facilidade … cá estamos numa das melhores partes, a Ponte D.Luis
onde além das vistas encontramos um dos maiores aglomerados de pessoas a
incentivar … o ambiente é excelente e carrega-nos as baterias … vou bem … siga
para o lado de Gaia ….
Já vejo
o pórtico da Meia Maratona ao fundo, tb já vejo as camisolas azuis do Silvio e
do Rui … consigo encostar ao fim de 21km … “tá muito lento caralho J” …. e está encontrada a companhia para os próximos 10km.
Passo a meia com ca. 1h40 e com excelentes sensações com uma média bem abaixo
do que tinha previsto fazer. Impecável..
cá estão eles ... pensavam que escapavam...
Até aos
24,5k (retorno perto da Afurada) vou na conversa com os meus compinchas de viagem.
O ritmo reduz um pouco, mais controlado … ir e voltar à Afurada dá tb
oportunidade de ver os amigos e conhecidos em prova, ver como estão, mandar e
receber incentivos é uma constante … o nosso Nuno Silva está no sitio habitual
quando não corre a Maratona J … desde a Afurada que o
ritmo baixou bastante, agora já muitas vezes acima dos 5min/km … o Sílvio vai
com algumas dificuldades …
… junto
às Caves Ferreira nova claque de apoio … já é tradição J … Ana, Andreia, Isabel, Martim e Renatinho … paro para cumprimentos
e high-5 … e siga que se faz tarde … volta o empedrado do cais de Gaia … este
ano voltei a fazer tudo sem ir aos passeios … e pela primeira vez em tantos
anos nunca me doeu os joelhos, nem o meu Mantorras J … curado??? Não … tão velho que já não o sinto J … já vejo ao fundo aquela subidinha diabólica para
voltar à Ponte D.Luis … continuo bem e faço aquilo com uma “perna às costas” …
incrível o tão bem que vou, apenas já noto um ligeiro desgaste a nível muscular
… não fosse o tornozelo ia 100% bem para quem já levava uns bons km nas pernas
a um ritmo acima do previsto… e com isto já falta pouco para o chegar ao mítico
km 30.


Mas
antes nova injecção de adrenalina com o muito público na saída da Ponte já do
lado do Porto … que espectáculo … muito obrigado a todos … e ali está a placa
dos 30km … olho para o lado e já não vejo os meus companheiros dos últimos km …
ficaram um pouco para trás … reduzo para que juntem … o ritmo baixou ritmos bem
acima dos 5,20min/km e está-me a desgastar … e como amigo não empata amigo, e a
estreia do Sílvio está a ser muito bem apadrinhada pelo Rui, decido ir embora
…. Despeço-me, desejo boa sorte e siga … estou com energia e com vontade de
encarar os últimos 10km cheios de garra … faço contas de cabeça e há
possibilidades de lutar pelo meu 2º melhor tempo de sempre … um tempo abaixo
das 3h24.

No
retorno do Freixo à Ribeira (a parte pior desta Maratona para mim) faço km a
4,30min, passam num ápice e começo a sentir desgaste … túnel da Ribeira … sinto
falta do Zé Alexandre que no ano passado me ajudou a passar este “monstro” que
me deita sempre abaixo … sigo sozinho, firme e hirto … este ano apercebo-me das
tv’s a passar cenas do Chariots of Fire … já está …sigaaa ..
Consigo
manter ritmos bem altos, entre 4,30 e 4,45min/km, mas já é em esforço … ainda
tenho pernas para dar e vender mas começo a sentir falta de energia … até ao km
28 cumpri à risca a alimentação com os géis (1 a cada 7km … desta vez usei uns
da Prozis que são mais pequenos mas que se tomam bem). Como sempre não descurei
a hidratação em nenhum ponto, aproveitei sempre as esponjas e até água para
me refrescar a cabeça … mas tinha dado dois géis aos 30km a um companheiro de viagem
que estava a precisar, pensando que ainda tinha outro e não tinha … e senti que
me faltou essa energia aos 35km … nada a fazer … sigaaa…
… fui
conseguindo manter o ritmo dentro do recém criado objectivo até aos 38km, cada vez
com mais esforço e adiando o mais possível a “marretada” que chegou aos 38km
ainda na marginal do Douro … foi-se a energia e ainda faltava fazer aquela
subidinha na Foz e fazer a interminável Avenida Brasil … tou lixado …
Só
resta uma solução … faca nos dentes e ir colocando um pé à frente do outro seja
lá como for … e assim foi não só até ao Castelo do Queijo como ainda até à
Anémona onde já se ouvia o speaker na meta …o 2º melhor
tempo de sempre numa Maratona tinha passado a miragem e agora via o balão das
3h30 a aproximar-se a grande velocidade … mesmo tendo uma vantagem de quase 3
minutos pelo facto de ter partido cá atrás fiz ponto de honra não chegar atrás
dele …
ali vem o balão das 3h30..
… mas
uma coisa é querer e outra é poder … as pernas não andavam mais do que aquilo …
começa a subida para a meta, que espectáculo … o corredor estreito, centenas de
pessoas junto aos gradeamentos a incentivar … como está diferente o público
comparando com ainda há poucos anos atrás … obrigado, obrigado …
isso .. tu olha pró relógio ... adianta-te um grosso...
… de
repente do lado esquerdo um grupo de camisolas do CAL … é o nosso Presidente Xô
Dias, Albina e outros que não reconheci a vibrar com a minha passagem … é pah,
a sério … eu que até ali tinha vindo a desfrutar da prova sempre a rir e na
puta da brincadeira quase me desmanchava e fui a conter o “suar dos olhos” …
acho que nem lhes dei a devida atenção (desculpem) … de tal forma que pouco mais à frente
ia falhando um abraço muito especial … dei
meia volta e o mundo parou por uns segundos… de tal forma
que o tal balão das 3h30 de repente já tinha passado J
Voltando
ao “relvado” retemperado pelo apoio e a cheirar a meta pensei … “nah … nem que
se foda tudo, mas fico à frente do balão” J …e pernas? Tá bem
abelha … o que me valeu é que os gajos abrandaram porque levavam 1 minuto de
vantagem em relação ao tempo do balão o que deu para os passar nas calmas,
entrar no Queimódromo curtindo o ambiente fantástico e cortando aquela meta de
forma tranquila a nível de ritmo mas numa montanha russa de sentimentos, entre
calafrios, olhos suados e alegria imensa como se fosse a primeira – isto de
cortar a meta de uma Maratona só quem passa por elas J


O tempo
oficial conseguido foi de 3:27:22 o que é a minha 3ª melhor marca de sempre.
Para quem andou lesionado e condicionado durante 9 meses e meio durante esta
ano, fez uma preparação de 1 mês à pressão até que foi bem bom. Muito melhor
ainda a forma como acabei, mesmo não podendo dar muito mais e estar completamente
empenado acabei relativamente bem. O tornozelo aguentou-se e até o senti menos
na 2ª metade da prova – entretanto inchou (provavelmente um derrame) mas não
dói – estou uns dias parado por opção.
O
pós-prova foi muito giro tb … mas fica para a tal posta à parte.
Esta
maratona encheu-me a alma por tudo … já participei em algumas míticas na
europa, em vários países … tb já tinha vaticinado que a Maratona do Porto tinha
tudo para atingir um nível como as melhores e este ano penso que chegou a esse
ponto. A organização em si é de excelência praticamente a todos os níveis – faltava
uma maior participação estrangeira o que foi conseguido este ano. Outra grande
diferença que eu via era a nível de público, pouca quantidade e nada entusiasta em anos
anteriores embora estivesse a melhorar de ano para ano – a este nível a edição
de domingo passado deu finalmente aquele grande passo – muita gente a assistir,
a apoiar de forma entusiástica – muito bom mesmo. A Maratona do Porto tem tudo
para crescer – estes estrangeiros vão voltar a casa e contar como foram
recebidos, como é lindo o percurso, como tudo funcionou, como os tugas recebem
bem, como é boa a nossa comida e quanto pouco custa – e para o ano teremos
muitos mais, os que vão regressar e os que pela melhor publicidade que existe
(boca a boca) quererão vir experimentar.
Um
ponto muito negativo e que tem incendiado a redes sociais nos últimos dias – os
BATOTEIROS – gente sem um pingo de vergonha que apenas faz parte do percurso,
corta caminho, faz a corrida por estafetas, etc, etc e tal e no fim cortam a
meta e vão buscar a medalha de finalizador. Pior ainda, tiram fotografias com a
medalha ao peito e postam nas redes sociais deixando-se parabenizar pelos
amigos e conhecidos com a maior cara de pau. Além de batoteiros, falsos e sem
escrúpulos são burros … como é que
pensavam escapar com tantas fotos, tanta gente a ver, com o registo dos
check-points divulgados na página da prova? Meu Deus … eu não entendo isto …
sei que sempre houve e em todo o lado, mas nunca pensei que fossem tantos e
ainda por cima descobri alguns que eu conheço e até admirava. Como é que esta
gente se sentirá à noite quando deitam a cabeça na almofada e desligam as
luzes? Eu costumo reviver a minha Maratona,os altos e baixos, desfruto das “vitórias”
e lambo as feridas e faço o luto das “derrotas” … esta malta deve sentir uma
frustração enorme pois no fundo sabem que não passam de uma fraude.
A
organização neste aspecto parece-me estar a trabalhar bem também, dado que
estão a limpar as listagens desta gente. Acho que andar a oferecer dezenas ou
centenas de dorsais nas últimas semanas através dos patrocinadores não ajuda em nada porque a maior parte das pessoas que vai não está preparada e poderá dar
nisto – embora não justifique o passar a meta. Acho que tem a ver com a guerra
estúpida com a Maratona de Lisboa e querer ter mais finalizadores – se querem
oferecer dorsais façam-no com 2 meses de antecedência para ainda dar algum
tempo de quem os ganha se preparar minimamente para uma Maratona.
Deixei
para o fim uma palavrinha para os meus compinchas do CAL que correram a
Maratona no domingo – acho que batemos o recorde de participação e todos
acabaram – 10 em 10 – jackpot. Parabéns a nós todos, com um parabéns muito
especial aos novos maratonistas – Serafim e Hélder – aos que bateram os seus
recordes – Americo (este mais um parabéns por fazer anos no mesmo dia), Jorge,
Joel.
Existem
histórias de grande superação por detrás de alguns (não é Bruno? O que um
simples pormenor de uma mensagem consegue fazer). Badolas? Tás empenado?
Treinasses. Zé Alexandre – até ao último segundo sem saber se podia correr
quanto mais acabar uma Maratona, que poderia ser mais uma mas era muito especial
não era? Pois era … sei bem que era ... esta foto diz tudo e de certeza que a
mensagem chegou J
Por fim
dizer que enterrei a história dos 11km da Maratona de Roma. Vou sentir falta do
nr.11, do gozo, dos bitaites … paciência. Acabou-se o nr.11 …
E com
esta de domingo, sabem quantas Maratonas de estrada concluí até ao momento???