sexta-feira

O meu CCC



Estou aqui à meia hora sem saber bem como começar isto ... aliás já comecei algumas vezes e voltei a apagar. Não sei se vou conseguir passar a palavras a minha CCC, tudo o que tive oportunidade de viver nestes 101km não tem qualquer paralelo com o que fiz até hoje. Mas vamos tentar, ora vamos lá mais uma vez…uma coisa é certa, vai sair mais um testamento e se chegarem ao fim são uns heróis J
10,9,8,7…..3,2,1… (contagem em italiano sff) … eram 9h em ponto e ia começar a minha “viagem de sonho”. Lágrima no canto do olho, a respirar fundo para não me desmanchar já ali. Mas o pelotão não anda porra ??? Estou bem na cauda e começo a ouvir novamente discursos lá do palanque na partida e consigo perceber que a próxima saída será às 9.15h. Ah bom… devem ter partido os da elite e a seguir somos nós. Assim ainda dá tempo para fazer mais aquele xixizinho, o 3º desde que cheguei a Courmayer, na parte italiana dos Alpes, uma pequena vila enfiada num vale completamente cercado de monstruosas e belas Montanhas.  

Tinha-me levantado às 5h e pouco da manhã, para apanhar o autocarro às 6.30h em Chamonix que nos transferia para Courmayeur. Tudo 5 estrelas, durante a viagem ainda deu para conhecer um inglês com quem fui entretido em conversas sobre trail em geral e o CCC em particular (que ele já tinha feito), comida e futebol. Fez-se bem. Consegui tomar um cafezito e refugiei-me dentro de um pavilhão do centro desportivo para fugir ao tempo fresco que fazia (14Cº), assistir a um treino de uma jovem selecção italiana de patinagem e ler mais uma vez as muitas mensagens que vários amigos me tinham enviado nas últimas horas – e ia suando dos olhos (algo que foi uma constante durante a semana que passei em Chamonix – não sei o que se estava a passar comigo, mas andava demasiado sensível com tudo isto). Estava naturalmente ansioso, mas não demasiado .. já estive bem “pior” em outras situações. E começou de novo a contagem decrescente…  até que enfim …

10,9,8,…. 3,2,1 e partida!!! … ??? … mais uma vez a zona onde estou nem se mexeu! O que se passa carago?? Recomeçam os discursos e mais uma vez consigo perceber que a partida seguinte será às 9.30h. A única diferença é que agora sim, o pelotão avança um pouco e fico a uns meros 50 metros do pórtico. O ambiente estava ao rubro, mas mais pelas pessoas que estavam a assistir do que propriamente pelos atletas, que estavam mais concentrados no que os esperava – era o meu caso, e basta olhar para algumas das fotos que tirei para ver que faltava alguma coisa ali na minha cara … o meu semblante estava fechado, faltava o habitual sorriso. Finalmente 9.30h, agora sim, vai começar a aventura….
10,9,8,…. 3,2,1 partidaaaaaa  …tinha chegado a hora de iniciar uma longa viagem onde me aguardariam um sem fim de novas situações. Melhor que eu tentar explicar por palavras é ver este vídeo que fiz da partida …
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Muito emocionante, e mais uma vez suei dos olhos, bem disfarçado debaixo de uns óculos de sol… vamos a isso ...
Courmayeur – Arnouvaz (27km, 1500D+ e 1000D-)
A prova começava logo a colocar-me perante situações que nunca tive, nunca treinei. O primeiro km é a percorrer as ruas de Courmayeur, cheias de gente a aplaudir, gritar, a incentivar … adrenalina vai no máximo e corro. Não tarda muito começa a inclinar a sério, primeiro em alcatrão serpenteando serra acima, para depois, com quase 3km entrarmos em estradões de terra pelo meio de uma floresta.




Vamos subir os 1500mD+ em pouco mais de 8km – são quase 20% de inclinação constante, e prolongada. Nunca nesta minha vida de trilhos me aproximei sequer de algo semelhante (minto … quando subi o Pilatus na Suiça, fiz ca.1600m de D+ mas em 12km). Aos 5km saímos da floresta e damos de frente com aqueles bicharocos enormes que irão ser a nossa companhia nas próximas 24 horas … seja para que lado que te viras, só vês monstros enormes, “fofos” e vestidos de diferentes tons de verde até meio, e brutos cinzentos e brancos de meio para cima – a rasga-los, vales de perder de vista. Paisagens de cortar a respiração que me anestesiam a alma. Um pouco mais à frente sou “acordado” por um monte de pessoal aos gritos e gargalhadas … olha, afinal na Meca do Trail mundial tb existem afunilamentos … numa pequena descida, antes de enfrentar a subida final à Tête de la Tronche está uma pequena multidão á espera de vez. A descida é pequena mas ingreme, e como agora entramos em single-track a coisa parou. Mas está tudo bem-disposto e civilizado – sem grandes atropelos e cada um na sua vez lá seguimos viagem.




Olho para cima e vejo uma linha de camisolas coloridas a zigue-zaguear pela montanha acima. Os lá de cima parecem formigas … meu Deus!!! Respiro fundo e sigo – as pernas estão frescas e tirando uma ligeira dor de estômago não habitual, estou bem. O ritmo é lento, não só pela inclinação, mas por ser single-track e não existirem muitos sítios onde possas ultrapassar – por isso é tudo feito ao ritmo dos mais lentos, e até com algumas paragens – numa delas tomo o meu primeiro gel. Estou com força e quero imprimir um ritmo mais constante – aproveito os “cotovelos” do percurso para fazer algumas ultrapassagens. Uma das dificuldades é que o calor já se faz sentir, estamos expostos ao sol que já bate sem piedade. Finalmente o cume, aos quase 2600m de altitude.








… sinto-me muito bem, afinal não custou assim tanto e do esforço em altitude nenhum sinal, para já. Recebo uma mensagem do Pires a dizer “Então pá?!? Quase 3 horas para fazer 10km?!? Deixa-te de brincadeiras e mete a 2ª! Abraço” … pois, explica um pouco a dificuldade desta primeira subida. As mensagens dos amigos vão ser uma constante durante toda a empreitada, as paragens para responder tb… e que importante foi sentir que tinha tanta gente a acompanhar-me pelo livestream da prova, que funcionou muito bem …

Agora serão 17km de descida e plano (ca.1000m D-) em single-tracks em que dá para correr, e eu corro.. Tudo sobre controle para chegar bem dentro do limite de tempo a Arnouvaz (16.45h) – mas antes ainda passo pelo refúgio Bertone (aos 14km) onde aproveito para encher os bidons de água.


O sol está a bater mais forte – os treinos com calor brutal lá no quintal dos Pernetas foram ideais para estas condições – não descuro a hidratação e aproveito cada pequeno riacho para me refrescar. Aos 15km uma queda estúpida … num single-track plano e fácil, em que vou a correr, dou de frente com uma família de caminhantes italianos, um deles um miúdo com talvez 4 anos que me estica a mão para me dar um “cinco” … descurei um pouco a concentração para corresponder ao miúdo, dou uma bicada numa pedra que estava fixa ao chão e catrapum, pela ribanceira abaixo … tive sorte, primeiro por ter aterrado numa vegetação fofinha e depois pelo facto de ter ficado preso nessa mesma vegetação – podia ter caído uns 3 ou 4 metros e teria sido feio. “Tudo ok” … voltei 2 metros atrás e dei o “High-Five” ao miúdo que estava super assustado e segui viagem … até ao refúgio Bonatti ainda foram uns 6/7km em single track ondulado, umas vezes a correr, outras a caminhar para me resguardar, como companhia sempre as monstruosamente belas montanhas por todo o lado, um vale de perder de vista, assim como o sol que não dava descanso. Sorte nesta fase encontrar constantemente riachos com água gelada a descer as montanhas … soube muitíssimo bem refrescar-me neles.






E cheguei ao refúgio Bonatti a 2015m de altitude. Desta vez sentei-me para descansar um pouco … já sentia as pernas um pouco cansadas, especialmente os quadricípites que começavam a dar sinais de fadiga … hmmm … preocupamo-nos demasiado com as subidas e esquecemo-nos que as descidas acabam por ser no mínimo tão massacrantes como as subidas, e esta embora tivesse pouca inclinação média já tinha feito mossa. Sentadinho à sombra enquanto trinco uma barra (aqui só davam líquidos) vou respondendo a mensagens, apreciando as paisagens, tirando fotos e assistindo à chegada e partida dos colegas de aventura. Era esta a minha estratégia para a prova – ir andando e curtindo, com o único objectivo de chegar ao fim. A minha única preocupação eram as zonas de barragem, onde queria chegar com alguma margem que me permitisse gerir a prova sem stress. Voltei a encher os bidons e o camelbak e siga… próxima paragem seria o primeiro ponto de barragem em Arnouvaz.



Para lá chegar fiz ca.5 km, metade a subir ligeiramente e a outra metade numa descida bastante acentuada (ca.12%) já para Arnouvaz que me massacrou bastante os quadricípites e os pés tb. Engraçado como uma inclinação que passa despercebida no mapa (que levava comigo) tenha sido a parte onde mais sofri até ao momento. Talvez o facto de ir com dores de estômago novamente também tenha influenciado. Mas finalmente cheguei a Arnouvaz … primeiro abastecimento sólido e primeira barreira do tempo atingida com uma margem bem boa … 2 horas de vantagem.








A primeira coisa que fiz foi ir à casinha … a segunda foi analisar o que havia para comer … decidi-me pelo pão, queijo e enchidos, e sopa com massa e uns bolinhos no fim … tinha que me alimentar bem, pois agora iria ter que enfrentar a 2ª subida acima dos 2500m do percurso. Sentei-me no exterior da tenda onde corria uma brisa muito ligeira que fez as minhas delícias. Uma paragem de meia horita que me fez bem.

Arnouvaz – La Fouly (14km, 900mD+, 1100D-)

Esta parte do percurso são “apenas 14km”, mas com a particularidade de a primeira parte ser sempre a subir 5km (quase 900m D+ = 18% de inclinação) para depois descer 1000m em ca.9km (11%). Resumindo, não iria haver zonas planas para descansar os músculos.
A subida não foi como esperada, massacrante … deveria ter sido pela inclinação, pelo cansaço que já se acumulava e pelo sol que não dava tréguas. Mas havia algo que me dava força … as paisagens … todas as zonas onde passamos são magnificas, mas esta parte estava a ser especialmente bela e absorvia a minha atenção quase completamente … água a descer por umas cascatas furiosas das montanhas para um vale esplendoroso … e quanto mais avançava, mais bonita se tornava a paisagem … olhar para cima e ver novamente camisolas de várias cores pela montanha acima, cada vez mais pequenas conforme o nosso olhar se tornava mais longínquo, não me estava a assustar, pois olhava tb para trás e conseguia ver o que já tinha passado, o que me deu uma confiança incrível naquele momento. Subi bem, muito bem mesmo, passada lenta, mas firme. A meio uma bica de água fresca que aproveitei para encharcar a cabeça, braços, pernas e encher novamente os bidons - muito bebi eu nesta empreitada, até lhe perdi a conta.
“Oi português!!! Tudo bem?” … era um brasileiro de São Paulo, que estava ali deitado a descansar com mais uma dezena de outros atletas … tínhamos feito alguns km juntos na conversa depois de Bertone, mas depois tinha-lhe perdido o rasto, eu tinha ficado para trás. Engraçado que nesta prova, raramente fiquei sozinho mas com poucos atletas falei … tudo muito simpático, muito prestável, mas pouco faladores … acho que todo o mundo estava concentrado na gestão da prova … e por mim esteve bem assim.








Chegado ao cume, o Grand Col Ferret, decidi sentar-me um pouco para descansar e só não me sentei no pontinho mais alto, porque estava ocupado por um chileno J … ali sentado comi uns frutos secos a contemplar aquelas paisagens brutais, e mais uma vez suei dos olhos (eu sei, eu sei … tb não entendo, mas foi assim) … lindo, lindo, lindo … absolutamente arrebatador com destaque para o enorme Vale D’Aosta (penso eu que era) onde dava para ver perfeitamente a enormidade de caminho que tinha feito nas últimas horas … tentei ligar com a Ana mas não foi possível por não haver rede, queria ter conversado com ela naquele ponto … curiosamente as mensagens passavam e estive ali a responder e a enviar algumas … estava vento e arrefeci … está na hora de seguir viagem antes que faça estragos … mas antes fiz um pequeno vídeo a 360º que não faz minimamente justiça ao que se vê dali, mas é o que se pode arranjar …


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Os 9km até La Fouly são sempre a descer, em single-track a contornar a montanha … vamos entrar na parte suíça … já é fim de tarde, e grande parte deste percurso é feito do lado da montanha que já não apanha sol … melhor assim!!! … pelo meio mais um posto de controlo em La Peule onde vejo as primeiras vaquinhas típicas dos Alpes … pensava que iria ver muitas, mas foram raras … por falar nisso, tb não vi a Heidi, nem o Pedro, nem o avô da Heidi J … mas em La Peule vi uns simpáticos lavradores velhotes que nos incentivavam e davam água … gostei muito de um tipo de tendas que montaram ali, caso alguém necessitasse de descansar um pouco … eu só bebi uma copada de água fresca e segui viagem … estava a descer benzinho, a correr a trote o que dava para progredir a bom ritmo. Não tardaria a chegar a La Fouly, com os últimos 2 km a correr a bom ritmo em estradões em terra e depois em alcatrão. Como sempre bastante gente a assistir, e sempre com palavras de incentivo … a cada incentivo fazia questão de agradecer com “Merci” “Thank You” ou mesmo “Obrigado” conforme a nacionalidade de quem me aplaudia …. sabe mesmo bem receber esta força J





 






Em La Fouly vi pela primeira vez alguns colegas muito mal tratados … pelo caminho, e desde muito cedo vi atletas em dificuldade, cãibras, estomago e outras situações “menores” … agora, ali com uma Maratona cumprida, já havia muita gente completamente exausta, brancos, desidratados, cadavéricos … impressionante – as altas temperaturas foram uma dificuldade muito grande, a que muitos não estão habituados … nós tugas, vimos de muitas semanas de calor extremo em Portugal – é nestas alturas que sabemos que valeu a pena o esforço de ter andando a treinar com 30 e tal graus. “Estes não chegam lá” pensei eu … com os médicos de volta a tentar perceber se poderiam continuar ou não, e eu a dar graças por estar bem, “apenas” com as pernas feitas num oito.



Em La Fouly passei a segunda barreira horária - continuava com ca.2h de margem, até um bocadinho mais. Impecável. Posso ficar aqui um bom bocado para descansar e abastecer bem. Como no anterior tinha funcionando bem, tb neste abastecimento apostei na sopa com massa (2 malguinhas) e pão com queijo e enchidos, rematado com uma fatia de bolinho no fim J Não sei o tempo que ficava nos abastecimentos, certamente mais de meia hora em cada um. Está na hora de ir conquistar o segundo “C” …
La Fouly – Champex-Lac (14km, 450D+, 400 D-)
Teoricamente uns dos troços mais simples de todo o percurso. E não foi difícil efectivamente. Muito estradão em terra com um rio do lado direito como companhia, descida ligeira, várias passagens por aldeias com piso em alcatrão com muitas das pessoas dessas aldeias na rua a incentivar de forma incondicional. A primeira parte fi-la a caminhar com um ritmo forte … saí de La Fouly e senti as pernas muito perras … estava a pouco menos de meio e decidi gerir um pouco. Queria chegar a Champex da melhor forma possível para “atacar” bem a segunda parte do CCC que se previa duríssima a todos os níveis.





Adorei as passagens nas duas ou três aldeias nesta fase … o apoio, os abastecimentos improvisados pela população, o alcatrão que me permitiram fazer alguns km bem abaixo dos 6min/km … “esqueci-me” da gestão e toca a dar gás, sentia-me supersónico e assim cheguei à barreira dos 50km … parei para ler e responder a mais uns sms e recebi uma chamada do Zé Miguel que atendi … aproveitei para colocar o frontal pois já há uns bons 20 minutos que a luz do dia tinha desaparecido. Estava na hora de enfrentar algo de completamente novo para mim. Sabiam que aqui o Perneta se meteu nesta aventura sem nunca ter andado em trilhos durante a noite? Nem testei sequer … eu sei, eu sei … no mínimo é irresponsável.



O meu corpo já pedia um café. Estava com um cansaço físico natural, e começava a ter sono … depois de ter descido tudo o que havia para descer nesta fase, e mesmo antes de entrar na subida para Champex deu-se um “milagre” … 3 miúdos (o mais velho deveria ter uns 12 anos, o mais novo uns 8) com um pequeno abastecimento improvisado … uma mesa, um foco de luz, uns bidons de água e termos com???? CAFÉÉÉÉEEEE!!!! Que maravilha … bati-lhes palmas de agradecimento. Sempre simpáticos, prestáveis … as pessoas que fomos encontrando pelo caminho são uma das minhas melhores memórias e estes 3 miúdos foram um exemplo disso, fazem-no com um enorme gosto, nota-se – está mais do que assegurado o futuro neste aspecto J … espectáculo!!!

E toca a subir para Champex, são “apenas” 450mD+, mas em pouco mais de 4km. Noite escura, uns atrás dos outros em silêncio, num single-track brutalmente inclinado pela montanha acima … apenas ouço o arfar da malta, o som dos bastões a tocar no chão em terra mas com pedra e raízes, e o tilintar constante de um sininho que um japonês leva na mochila … engraçado nos primeiros dois minutos, um pouco irritante depois disso. Estou a adaptar-me muito bem à luz do frontal … sem problemas. O sono tb se foi, talvez pelo café – obrigado miúdos!!! Esta subida corresponde mais ou menos a uma subida ao Camouco, do Quintal dos Pernetas … pelas minhas contas durante esta empreitada toda subi e desci umas 15 ou 16 vezes ao Camouco J
Durante a subida um episódio engraçado … já vinha “assado” no respectivo há uns bons km e aquilo estava a incomodar-me bastante. Nunca tenho este problema, pelo que não coloquei nada. Mas tinha vaselina comigo e decidi por durante a subida … era só encontrar o momento certo de enfiar a mão nas traseiras e esfregar montes de vaselina como se não houvesse amanhã. Acontece que não estava sozinho, e andei algum tempo para encontrar uma brecha onde me pudesse enfiar na floresta para esta operação que requer uma certa intimidade J … enfiei-me na floresta, a uns 5 m dos trilhos e desliguei o frontal para começar a operação. Estranhei o facto de todos os focos, quando passavam no trilho em frente, virarem o foco para mim. Mas que raio??? Só depois é que me lembrei da luz de presença vermelha que estava acesa na minha mochila, uma luz vermelha a piscar no meio da escuridão que chamava a atenção a todos que passavam J … vou ter que aguentar até Champex, pois não me apetece tirar a mochila para desligar a luz.

Começo a ouvir uma grande azáfama mais acima … ainda não se vê nada, mas pressinto que estou a chegar a Champex. Os últimos 200m são em alcatrão, já muita gente a aplaudir a nossa chegada … “Merci, merci, merci, merci ….” … espectacular …. passo por uma rapariga que me diz “Allez Carlos” … ainda não me tinha saído o “Merci” para ela, já ela gritou “olha um Tuga” e só ouvi um grande aplauso de uma malta de miúdos que estava com ela … fartei-me de rir com a festa que me fizeram, mas não parei … acenei-lhes, agradeci e siga para dentro da tenda de Champex … 56km e estava conquistado o segundo “C” … para completar a trilogia agora só faltava mesmo o “C” de Chamonix.

O que vi aqui em Champex foi impressionante. Largas dezenas de atletas, talvez até centenas, grande parte deles acompanhados por familiares e amigos. Era possível um acompanhante entrar na tenda juntamente com o atleta para lhe dar assistência … Champex era uma espécie de Base de Vida. Liguei para as minhas filhotas, falei com a Maria mas não consegui falar com a Isabel – isto dá um certo ânimo ao telefone. Imagino a força que não dará a presença física ali dos que nos são mais próximos. Foi nisso que eu estive focado enquanto descansei e comi – desta vez comi uma pratada de massa, novamente pão com queijo e chouriço e um bolinho. Muito giro ver os companheiros e os filhos dos atletas ali de volta deles, a apaparica-los … estas aventuras não são apenas dos atletas, não é segredo nenhum as horas e horas que são gastas na preparação de um projecto destes, muitas vezes em prejuízo da família e amigos – mas ali estavam muitos, de forma incondicional no apoio ao realizar de um sonho. E claro, o Perneta sentimental, como sempre, a fazer esforços enormes para não voltar a suar dos olhos … isto só porque me iria gastar reservas de sal, só mesmo por isso J

Analisei o mapa do percurso apenas para confirmar o que me faltava para chegar a Chamonix – ia começar a luta a sério – 3 picos acima dos 2000m, ora sobe ora desce brutalmente, nada de troços para descansar as pernas. Como sempre, a filosofia de sempre, "uma coisa de cada vez" e o próximo objectivo era Trient … são 17km. E continuo com uma boa margem – ca. 2horas.
Champex-Lac – Trient (17km, 750mD+, 650m D-)
Quando me levantei para seguir viagem estava um bocadinho pró perro. “Txiii, como tu estás moço” … ainda antes de arrancar, fui ao WC colocar vaselina no rabinho J O primeiro km é feito a atravessar Champex, em alcatrão – logo à saída sinto frio e troco a camisola de manga curta por uma de manga comprida mais grossa.

Depois de Champex começa a descer em estradão florestal durante mais dois ou três km onde é possível correr. Foi a correr que desemperrei as pernocas, e até me estava a sentir bastante bem e confiante (não fazia a mínima ideia do que este troço me iria fazer sofrer). A Ana ligou-me durante esta fase e foi muito bom ouvir a voz dela, como sempre rimos muito e quando dei por ela começou a subida. Ainda voltei a responder a umas sms dos amigos – deveria ser por volta da meia-noite e lá ia eu pela montanha acima. Desta vez já bem menos gente … aliás, eu subia a um ritmo bem mais forte do que a grande maioria dos que ali estavam, e sempre que podia ultrapassava. Não sei exactamente porquê, mas esta subida interminável massacrou-me psicologicamente - foi a primeira vez durante estas longas horas que eu entrava em modo de “Gru Maldisposto” …

... e quando isso acontece, transformo-me a 180º … tudo mete nojo, todas as dorzinhas me incomodam, a puta da subida, a merda da raiz, o gajo que vai à minha frente, o gajo que vai atrás de mim, a sorte que a besta do japonês com o sininho na mochila tem em não estar ali agora, o rego do cú assado, as La Sportiva não valem um caralho pq me doem os pés, a mochila que me dá cabo dos ombros, o isotónico da organização que só faz espuma, “foda-se, tudo escuro, nem uma foto dá para tirar em condições” … e foi isto durante toda a desesperante subida. E quando finalmente começou a descer, piorou … cinco vezes … descer para Trient foi um massacre … descer 650mD+ em ca.6km, por single-tracks aos “S”, com pedra, com raízes, com degraus obrigando andar aos saltinhos … as pontas dos dedos dos pés constantemente a bater na parte da frente da sapatilhas, que dores horríveis!!!! Da próxima em vez de 2 números acima tenho que comprar 5 números acima.
Ainda parei no controlo de La Giéte, sentei-me um pouco, enchi os bidons e comi uns frutos secos. Vários atletas decidiram ficar ali a dormir um pouco … eu não, eu queria acabar com aquele sofrimento e chegar a Trient o mais rapidamente possível. Mas aquilo nunca mais acabava … por muito que sofresse, nunca coloquei em causa o que andava ali a fazer, que não valia a pena ou que não iria chegar ao fim. E por fim vi as luzes de Trient lá bem em abaixo … “tá quase” … mas não estava, para lá chegar ainda tive que penar bastante montanha abaixo, curva à esquerda, curva à direita, degraus, travagens .. “todos pró caralho!!!”. Do outro lado do vale, uma procissão de luzes a serpentear por uma Montanha sem fim acima …. “vou ter que fazer aquilo?” … um murro no estômago para quem vem com a moral em baixo … mas antes disso é preciso chegar a Trient, onde chego bem dentro do tempo limite, muito desgastado física e psicologamente em baixo.


Desolador o ambiente dentro da tenda – não sou o único a estar derreado. Só a título de exemplo, um espanhol que se sentou à minha frente na mesa, olhava para mim vidrado e não reagia às minhas palavras – era um zombie. Demorei algum tempo só para me levantar e ir buscar alguma coisa para comer – mais uma sopa com massa, desta vez não me apeteceu pão – decidi-me por laranja e banana e por café com uns docinhos. Saquei do mapa para ver o que me faltava, como se precisasse dele. Eu sabia-o quase de cor, eu sabia que me faltavam outras duas subidas e descidas piores do que esta última. “Não sei como, mas vou fazer isto, nem que seja a rastejar” … a mente estava a reagir, pensava nos amigos que estavam aquela hora a acompanhar-me e a mandar mensagens de apoio, estava a levar-me a imaginar mais uma vez a minha chegada a Chamonix, conseguia senti-lo e mais uma vez as lágrimas caíam-me pela cara abaixo. Estava na hora de seguir …

Trient – Vallorcine (11km, 750mD+, 800mD-)
São “só” 11km – 5km para subir 750m e depois 6km para descer 800m. Peaners! Não vou dizer que foi fácil, não sei o que se passou, mas a realidade é que passei de “Gru Maldisposto” para o habitual “Perneta bem-disposto” num ápice. Aquele atleta desesperado que tinha chegado a Trient era agora um supermotivado jovem, a subir a bom ritmo para Catogne. Mas que linda noite que está, as sapatilhas são um espectáculo, dores??? Que dores???, La Sportiva rules!!!, estes trilhos sem as inclinações brutais não tem piada e até o japonês em vez de um poderia ter 20 sininhos a tilintar às costas que não haveria problema nenhum.
Assim cheguei a Catogne, abasteci os bidons de água e siga montanha abaixo que Vallorcine é já ali e isto não custa nada… descida em tudo idêntica à anterior, só com uma diferença. A minha disposição e motivação estava no máximo de tal forma que corri que me fartei … sim, a descer e ao contrário do que costuma acontecer, ultrapassei montes de atletas e nem um me consegui-o passar. Isto em 6km a descer. A nossa mente é incrível. Eram 4 da manhã quando recebi uma mensagem que me emocionou muito – era da minha mãe que estava acordada aquela hora por minha causa.


E assim cheguei a Vallorcine … 2h45min depois de deixar Trient, com as pernas cansadas mas supermotivado e cheio de vontade em continuar. Espectáculo … já nada me poderia parar… “9.30h estou em Chamonix” … Será? J


 Vallorcine – La Flegére (11km, 900mD+, 300D-)
Depois de apenas 10-15min neste abastecimento, em que nem me sentei para não perder o gás, e apenas comi uma sopa, uns bocados de banana e laranja e abasteci de água e isotónico, estava de volta à “estrada”. Continuava muito motivado e com vontade de chegar rapidamente a La Flegére. São novamente 11km, sei que sobe mais um pouco mas 3h devem chegar.
Os primeiros 3km até ao sopé da última Montanha a conquistar são fáceis, por entre campos em estradões largos, faço-os a caminhar com vigor. Poderia correr, mas quero poupar-me para a última grande subida. Foi nesta fase que nasceu o dia, mais uma vantagem … luz natural e tempo fresco …” já nada me pode impedir de chegar a Chamonix, sou o maior!!!” … será?


Começo a última grande subida cheio de confiança, imaginem que até vou a contar os atletas que vou passando … cheguei aos 20, mais ou menos a meio, e tive que me sentar. A subida é difícil, muita pedra, é mais escalar do que caminhar … e isso massacrou-me os pés de tal forma que devo ter formado bolhas. E estou a ficar cansado e rabugento novamente. Decido parar um pouco, tomar um gel e olhar para as montanhas como forma de inspiração … costuma funcionar, costuma! Mas desta vez nem por isso. Vamos lá acabar com isto ... e siga montanha acima, agora numa passada mais lenta e sofrida muito por causa dos pés e tb pelas assaduras no rabo – a vaselina não fez grande efeito. Também as tive no troço anterior, mas não liguei – lá está, estados de espirito diferentes, agora a ficar novamente tipo “Gru Maldisposto” já sinto as dores todas novamente.

O sol e as temperaturas altas estão de volta … apetece-me tirar a camisola de manga comprida, mas ao mesmo tempo não quero parar. O grau de rabugento aumenta a cada passo – já estou a reclamar por cada pedra que piso, o que quer dizer, a cada passo que dou. Tenho dores horríveis nos pés, e o esquerdo é pousado de lado por causa de umas bolhas que se formaram no calcanhar do esquerdo. Já vejo o fim da subida … e pouco depois chego lá também. “Foda-se, tá feito” … paro para ver mais umas sms que chegaram, respondo ao Zé Alexandre que atingi o último cume Téte aux Vents e que agora faltam apenas 14km. Pensavas tu, ó Perneta!!!
Acontece que ainda não tinha subido tudo, ali houve uns troços mais planos, mas nem por isso mais fáceis … sempre muita pedra, sempre com dores desesperantes nos dedos e calcanhares dos pés. E mal-humorado, a reclamar com tudo e todos. Os 20 que tinha ultrapassado no início da subida já voltaram todos a passar por mim, esses e outros tantos, pelo menos.



Finalmente vê-se La Flegére ao longe … ainda serão uns 3 km para lá chegar, primeiro em plano e a descer, mas sempre a caminhar lentamente por causa das dores, agora também nos joelhos. E o calor? “Rais parta o sol” … estava intratável e sabia disso. O meu telefone toca, primeiro o Zé Miguel, um pouco mais tarde o Bruno … vejo mas não atendo … além disso tenho sms por responder … tb não respondo. Estou aborrecido, a passar a pior fase de toda a prova e não me apetece “aturar” ninguém.



Estou com a neura!!! Talvez fosse um erro na altura, talvez devesse ter atendido, talvez me tivessem conseguido animar para os últimos kms, talvez … ali está La Flegére, mas é preciso subir duas pequenas rampas em zigue-zague para lá chegar – normalmente nada de especial, mas nas minhas condições é um frete daqueles, de tal forma que tenho que parar logo na primeira, tirar a mochila, tirar a camisola de manga comprida e vestir a de manga curta, beber, respirar fundo, antes de voltar para vencer o resto que me faltava para chegar à tenda de La Flegére, onde só havia líquidos. Fonix!!! Eu sabia que eram só líquidos, mas o meu estado de rabugice suprema achava que a organização era uma merda, e que ali haveria de ter sólidos também. Tudo me metia confusão.


Enchi os bidons pela última vez, e saí para os últimos 7/8km até Chamonix.
La Flégere – Chamonix (8km, 900mD-)
No abastecimento ouvi uma conversa entre duas francesas, em que uma disse à outra que agora iam nas calmas até lá baixo – 1h15min estariam lá. Depreendi que agora, pese embora a inclinação fosse enorme, os trilhos seriam fáceis. Pois … mas começa logo com 100m de inclinação em que as pontas dos dedos dos pés vão encostados à biqueira das sapatilhas constantemente, mesmo com os 2 números acima!!!!?!!!

Que dores dilacerantes senti … podem imaginar a minha boa disposição J … agora consigo rir-me disto, mas juro-vos que na altura só me apetecia matar alguém. Os próximos kms são a descer por single-tracks, que serpenteiam por uma floresta, cheios de raízes e pedras.


Eu vou a caminhar, a cerrar os dentes … estou farto disto tudo, estou farto deste tipo de trilhos, estou farto do calor, estou farto das dores nos pés, nas pernas. Estou farto de ver “concorrentes” (neste momento vejo-os assim) a passar por mim e mesmo os muitos caminheiros em sentido contrário que nos encorajam me enervam , mas faço um esforço por agradecer cada “Allez”, cada “Courage”, etc, etc. Decido enviar uma mensagem à Ana e recebi duas de volta que me animaram um pouco. Desde que sai de La Flégere que consigo ver Chamonix mas nunca mais chegamos lá abaixo. E continua pessoal a passar por mim … “se não fossem os pés, eles viam caralho!!!” … pois, se não fossem os pés, as pernas, o mau-feitio …  é como digo, agora dá para rir J

… e finalmente a periferia de Chamonix … paro, sms para a Anabela a avisar que estou a 2 km e que agora vou correr. Coloco os bastões na mochila, tiro a bandeira do CAL, penteio-me porque quero chegar bonito J
O mau-humor foi-se num milésimo de segundo e começo a correr, primeiro a testar nuns passinhos lentos e envergonhados, depois a aumentar a passada com confiança. Entro em Chamonix, saco da bandeira … tanta gente … espectacular … onde estão as dores? Devem ter ficado com o mau feitio à entrada de Chamonix.
Vejo a primeira vez a Anabela e o Paulo … vou rápido demais, de tal forma que a Anabela nem consegue tirar fotografia … paro para os cumprimentar … eles correm para a recta da meta e eu ainda vou dar a volta ao quarteirão, finalmente entro na recta da meta, na mesma recta da meta onde vi muitos outros heróis a chegar nos dias anteriores … agora era a minha vez, o meu momento de glória e foda-se, era bem merecido … ali estava o Paulo novamente, um pouco mais à frente a Anabela a correr ao meu lado e a filmar o momento …
video

E é assim que corto a meta, a sonhada meta. Estava feito, 25h51min e 101km depois de ter partido de Courmayeur tinha concretizado o meu sonho. Tinha imaginado que me iria desfazer em lágrimas quando cortasse aquela meta, mas não, nem de perto … estava muito feliz, mas desta vez deu-me para sorrir, deu-me para confraternizar naquele momento.


E deu-me para ir cumprimentar e dar um abraço a um espanhol que estava para ali a chorar como uma Madalena num canto, meio abandonado. “Então páh?” … “No pasa nada hombre, no pasa nada” … como o compreendo ...
Foto da praxe, e estava na hora de voltar ao hotel. Estava estourado e só pensava em tirar as sapatilhas, tomar um banhinho e em ir dormir. É evidente que respondi às sms que ficaram pendentes e fiz umas chamadas antes disso.

Um banhinho, e uma soneca de 3 horas depois, e lá estava eu sozinho no meu quartinho a ver as fotos que tinha tirado, a absorver o que tinha vivido nas últimas 30 horas e a ler as mensagens que entretanto me chegavam aos magotes. E as lágrimas caíam em catadupa por esta cara laroca abaixo. Não sei o que se passou, mas andei toda a semana assim … esta história do CCC mexeu muito comigo. Talvez saiba porquê, pelo menos desconfio … não tive um fim de ano 2015 e um início de 2016 muito fácil, mas felizmente tenho muita gente amiga que não me deixou cair e sempre me apoiou. E entre outras coisas, agarrei-me à corrida, sendo o CCC o maior expoente disso e estava feito, estava ultrapassado, tal como a minha fase de vida menos boa.
Em forma de resumo, a CCC correu muito bem, foi quase perfeita – nunca levei com a “marreta” e geri muito bem, mesmo tendo pouca ou nenhuma experiência neste tipo de prova. Acho que provei que qualquer um é capaz de concretizar algo deste género, basta acreditar, querer mesmo muito e "trabalhar" para isso. Depois um bocadinho de sorte e está feito.
O UTMB e tudo o que gira à volta é qualquer coisa de fantástico. Quem gosta de Trail e distâncias longas tem que um dia ir ao UTMB viver o ambiente e fazer uma das provas – e existem para todos os gostos e pernas. Claro que além do querer muito é preciso fazer o investimento em $$$, que não é barato, mas também não é nenhum exagero – aliás, sempre pensei que fosse tudo muito mais caro.
Falta referir a surpresa que os meus amigos e familiares me fizeram à chegada ao aeroporto do Porto. Não contava e fiquei muito feliz por isso … nem sei como me segurei. Pelo que contam, ainda cambaleei duas vezes e quase que desmaiei J

Mais uma vez obrigado a todos vocês, aos que estiveram, aos que não puderam, a todos que de todas as formas e feitios me fizeram chegar apoio. Volto a referir que isso me deu uma força enorme e ajudou a concluir o sonho, só eu sei quanto.
Um obrigado especial para a Anabela e o Paulo – foram vocês que me meteram nisto, ao lançarem o desafio uns poucos dias antes de fecharem as inscrições para o sorteio. Depois organizaram tudo e aturaram-me estes dias. Vocês são um espectáculo e um exemplo para mim. Vamos com certeza ter mais oportunidades de embarcar numas aventuras assim. Ao Paulo a maior das sortes para a TDG daqui a uns dias.

Por fim um enorme agradecimento à Ana … tu sabes porquê!!!

31 comentários:

  1. Pronto! Porrra! Lá estou a suar dos olhos! Essa merd** pega-se?!
    Não tenho palavras! Relato magistral e fenomenalmente ilustrado com excelentes fotos!
    És mais um dos meus heróis! Grande, grande atleta e com uma alma enorme, maior, bem maior, que essas montanhas por onde andaste!
    Sabes esperei, ansiosamente, por este teu relato e conseguiste superar todas as minhas expectativas que eram muito elevadas.
    Olha estou para aqui que nem sei o que escrever nem como escrever por isso é melhor simplificar e resumir a coisa: ÉS O MAIOR!
    Grande abraço.
    Nota: vais direitinho para os aplausos para lá no meu “tasco”!

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    1. E pronto ... um exagerado mas a gente gosta ;)
      Muito obrigado pelo apoio, antes, durante (soube muito bem receber as sms bem dispostas de uma tal raposa manca) e depois.
      Grande abraço

      P.S. Aplausos no UK é uma honra muito grande!!! Obrigado

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  2. Carlos, é sempre uma delícia ler o relato das tuas aventuras, a forma humilde e sincera como descreves cada pormenor da corrida: a inclinação, as curvas para a direita ou esquerda, o tipo de piso, a paisagem, os pequenos episódios que vão acontecendo é sintoma que a vives muito, mas muito intensamente. Isso é puro doping para nós que também gostamos de dar corda às pernas.

    Parabéns pelo feito, não é para qualquer um e continua sempre assim: bem-disposto e manda a neura às favas.
    'No pasa nada hombre' :)

    Grande abraço

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    1. Muito obrigado Jorge. Como vivo estas aventuras de forma intensa e atenta aos pormenores, e com a ajuda das fotografias que vou tirando, tenho facilidade em me lembrar desses mesmos pormenores. No fundo é um registo para mim, para mais tarde recordar e reviver ... e se serve para mas alguém se inspirar, então é maravilhoso.
      E não concordo que não seja para qualquer um ... eu acho que é para qualquer um que não tenha nenhum problema grave de saúde, e tenha alguma disponibilidade financeira. Tem é que querer mesmo muito, e fazer por isso com o apoio de quem o rodeia .. e o facto de eu o ter conseguido é a prova disso ;)
      Quanto à neura, já nem me lembro ... hehehehe...
      Grande Abraço

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  3. Estou como tu, não sei o que escrever...estou a pensar que isto do trail não é para mim, se já tenho mau feitio, faço ideia quando ( já percebi que não é"se", é quando) atingir o poço.

    Relato sentido, doem -me as unhas dos pés, mesmo sentido:)

    Ainda bem que, no fundo, tudo correu bem.

    Não tenho mais a dizer, mostras mesmo que qualquer um ( não estou a ser depreciativo ) com muito esforço pode fazer coisas muito bonitas.

    Aquele abraço

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    1. Hehehehe ... isso dos pés passa rápido, dois dias e tás fininho :)
      Sempre disse que admiro as pessoas "normais" que fazem coisas extraordinárias. Isto aos olhos das pessoas "normais" é algo de extraordinário, só para malucos ... eu não concordo, é algo perfeitamente atingível para (quase) qualquer um se o quiser mesmo e se esforçar por isso - se não quiser mesmo, fazer por fazer não vale a pena.
      E muito obrigado pelas sms bem-dispostas, e já agora por aquela pequena converseta, ali perto do meio da prova :):):)
      Aquele abraço

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  4. Começando pela sensibilidade, também quando vou a uma Maratona sucede-me o mesmo, fico com uma sensibilidade tal que qualquer coisinha dá-me para o sentimento, tal como te sucedeu e que penso terá a ver com a grandeza do desafio mas também com as coisas que vão condicionando a nossa vida e que nos fazem agarrar ao desafio de forma muito mais firme, como bóia de salvação.

    A organização pegou-me um susto do caraças. Penso que foi lá para os 60 e tal, onde segundo as minhas contas mais pessimistas, já devias ter passado e onde mais de 70 que vinham atrás de ti no controlo anterior já tinham passado nesse. Como ia dando informações sms à Anabela, Jorge e Isa, manifestei o meu receio. Mas entretanto colocaram-te naquele controlo, com tempo de passagem há 45 minutos atrás. Ou seja, houve um problema qualquer e não puseram de imediato a tua passagem. Esse foi o nosso grande susto, de resto era ir vendo aparecer de x a x o teu nome em cada controlo, sempre certinho :)

    Já muito te disse mas reafirmo a expressão mais elevada da minha admiração e respeito por um feito desta monta. ÉS UM HERÓI!!!

    Um grande abraço e até Novembro

    ps - Linda colecção de fotos!

    ps 2 - Imagino o susto do puto a querer dar-te um "cinco" e a ver-te esbardalhar! :)

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    1. Pois eu também apanhei cá um susto com isso! Ainda pensei que fosse uma da duas famosas paragens técnicas para actividade relacionada com a fertilização do solo!... :) Mas mesmo sendo tu quem és era tempo demais para a "coisa" :) A serio comecei mesmo a ficar preocupado!

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    2. Grande João, acho que somos parecidos na forma como sentimos estas coisas. E eu acho que é bom ser assim.
      Tive conhecimento dessa vossa preocupação pela Anabela, mas quando a contactei já estava tudo resolvido :)
      Muito obrigado pelo teu apoio constante ... sabes bem, o quanto é importante saber que do outro lado temos amigos que estão contigo. Dá aquela força, especialmente quando está numa fase menos boa.
      E tás a ficar como o Jorge Branco, um bocadinho pró exagerado... mas pronto, eu gosto!!! :)
      Grande Abraço e já falta pouco, ca. 2 meses ;)

      P.S. ainda tenho muitas mais (300, 400, 500??? nem sei bem ... alguém de quem gosto muito, chamou-me de corredor-fotógrafo ... talvez seja mesmo isso, ajudam-me a lembra dos pormenores :)

      P.S.2 - o miúdo estava quase a chorar, lembro-me dos pais lhe estarem a dizer para não esticar mais a mão. A culpa não foi dele, foi minha ... foi por isso que fiz questão de voltar um pouco atrás para lhe dar o High-Five "falhado", no fundo uma forma de dizer que estava tudo bem :)

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  5. Pronto, agora por aqui! :D E tornei a ler e tudo (fiz o CCC duas vezes, ora toma! :P)
    De resto, muito bom, obrigada por me/nos levares contigo.
    E cansado, tu? Imagina eu, que estava a seguir-te em livetrack?!!! Isso sim, uma canseira, uff... Até tinha de ir buscar uma mine a cada pico mais alto. :P
    Muito feliz por ti. Parabéns Perneta dos Montes Claros! :)
    Beijinhos

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    1. Txxxiiii, vais rebentar a escala de km este ano :P
      Obrigado, por teres lido, por teres gostado, e muito obrigado por terem estado desse lado a acompanhar-me ... as sms operam milagres, e ajudam pra caraças .. sabes bem disso ... lembro-me de uma vossa (depois da meia-noite, talvez perto da 1h da manhã) que me soube que nem ginjas ;)
      Então foi um six-pack de mines ;)
      Beijinhos

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  6. Mais um relato cinco estrelas :)
    Parabéns pelo enorme feito!
    E não podia faltar uma foto às vaquinhas, eheh!
    Abraço

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    1. Obrigado Edgar. As vaquinhas não podiam faltar ... não encontrei foi nenhuma da Milka ;)
      Abraço

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  7. Excelente relato Carlos, muito detalhado e inspirador.
    Quem sabe um dia me arrisco a fazer tal aventura.
    Parabéns mais uma vez. Ano que vem fará de novo? :)

    Abraço, bom descanso

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    1. Muito obrigado. Se tiveres oportunidade acho que deves ir, tenho a certeza que irás gostar.
      Para o ano não devo ir, tenho outras provas que gostaria de fazer. Mas conto lá voltar, não em prova, mas para percorrer alguns trilhos em modo "livre" :)
      Abraço para o outro lado do Atlântico

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  8. Algumas destas histórias já as tinha ouvido mas, de facto, a escrita trás outro encanto à coisa.
    Nunca até hoje me tinha comovido com um relato teu. Até ler este.
    Creio que também pelo facto de ter convivido estes dias contigo e tendo agora tido a oportunidade de ler esta aventura fiquei com a sensação que saiu cá para fora um outro Carlos.
    Nunca duvidei que falhasses este objectivo (a não ser por causa de algum infortúnio). Sabia que chegavas lá, demorasse o que demorasse, custasse o que custasse. E custou! Eu sei! Eu vi!
    Fica aqui a minha (ainda maior) admiração por ti. Sem dúvida que és uma das pessoas que mais gosto de seguir e aqui estarei, sempre pronta a desafiar-te, a elogiar-te e a dar-te um calduço se for caso disso...
    Abraço sentido!! Tipo, aquele junto à meta ;)

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    1. E pronto ... queres fazer-me suar dos olhos outra vez???
      Acho que já foi tudo dito, apenas volto a frisar que a admiração é reciproca ... tanto por ti como pelo Paulo. Gosto de vocês porra!!! Gente boa é o que é, e sem dúvida uma inspiração para mim ... e a sorte que eu tive em ter-vos por perto nesta aventura??? :) ...
      Vamos ter mais oportunidades destas, ai vamos vamos ... não se veem livres de mim assim tão facilemente .. é preciso alguém para vos "por na linha" ;)
      Beijinhos grande para ti e um grande abraço para o Paulo

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  9. Parabéns pelo feito que de certeza não foi nada fácil

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  10. Nem tenho palavras Carlos...Simplesmente BRUTAL!
    Muitos, muitos parabéns! És grande!
    Desde o inicio que o João Lima nos foi pondo a par da tua prova e vibrámos com cada notícia, com mais uns km's percorridos.
    E agora ao ler ao relato, ao ver as lindíssimas fotos fico ainda mais impressionada.

    Magnífico!

    E continua assim com esta escrita sincera e com este teu humor tão característicos :)

    Beijinhos e abraços nossos e não sei se já tínhamos dito mas MUITOS PARABÉNS!!!

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    1. Obrigado por tudo Isa.
      Beijinho para ti e um abraço para o Vitor.

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  11. Parabéns Carlos! Grande conquista!

    Tinha guardado esta leitura para quando a pudesse ler com calma... :)
    Comecei a ler, fui almoçar e acabei de a ler! Descreveste muito bem a tua aventura e deu-me um prazer enorme em ler este relato! A escrita em conjunto com as fotos, até parece que estive lá contigo!
    Agora vou ali suar dos olhos e venho já! :)

    Abraço

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    1. Obrigado Luis :)
      Fico contente por teres gostado.
      Grande Abraço

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  12. Parabéns pelo(s) feitos(s) e pela(s) crónica(s) que são notáveis e partilhados com uma modéstia que é também verdadeiramente inspiradora.

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    1. Obrigado pela visita e pelo comentário. Abraço

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  13. Muitos parabéns Carlos! Foi um grande feito não haja dúvida! Sobre a maneira como descreveste a tua aventura, impressionante. Conseguiste mesmo transmitir as emoções que te iam na cabeça e deu para perceber o quão importante esta prova foi para ti. És grande!

    Adorei as fase do Gru-Maldisposto :) também sofro desse mal, mesmo que sejam provas de 10km. Há sempre aquela parte da prova em que tudo está mal e que todos podiam ir para o raio que os parta :D

    Um grande abraço e boa recuperação

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    1. Muito obrigado Vitor. Foi sem duvida a aventura da minha vida até à data.
      Acho que todos sofremos desse mal, a do Gru-Maldisposto, a diferença é que nestas aventuras dura horas e no teu caso são alguns minutos :)
      Abraço

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  14. Comecei a ler no tlm na hora de almoço, mas depois de uns parágrafos e umas fotos, tive medo e refreei-me... E estou aqui com medo de começar a ler o teu testamento, e olha que o vou ler durante o jogo do Benfica. Se não me dás valor por isso, não sei. E sinto medo porque... porque, bom vamos ver no final.

    Primeira nota: A partir dos 40 é muito fácil suarmos dos olhos, não sei o que se passa mas não és o único..."e mais uma vez as lágrimas caíam-me pela cara abaixo" Lágrimas?!?!!? Mas não era suar?

    Suspiro... E pronto confirmou-se o meu medo. Nem é pelo comprimento do texto, era pelo facto de me transportares lá para dentro, ou melhor, lá para fora, para aqueles monstros que rasgam o azul do céu com uma violência inenarrável e que eu já tive um perfume nos Pirenéus... E sim, é verdade acabo este texto com uma vontade enorme de ir morrer e renascer para os Alpes.

    Parabéns, parabéns pela prova, parabéns pelos treinos e pelo esforço, parabéns pela conquista, parabéns pelo texto, parabéns pelas fotos e parabéns pelos amigos e amigas. Parabéns pelo reerguer. Parabéns.

    Abração

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    1. Obrigado pela leitura atenta e pelo comentário sentido. Fico contente por não ser espécimen único, neste mundo dos machos que correm e se emocionam com estas coisas :)
      Faz lá o teu "caminho" tb, e um dia vai a Chamonix participar numa das provas do UTMB ... vale a pena.
      Aquele abraço

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  15. Muito atrasado mas Parabens. :)

    Sinceramente , estava a ganhar coragem para ler...tu sabes porquê.

    Mais uma vez , não sei o que te dizer...
    Obrigado por esta viagem.
    Consegui não suar dos olhos , mas está tudo cá dentro.

    Grande admiração e estima.

    abraço
    ajb

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    1. Mais vale tarde do que nuca :P
      Eu sei ... não te preocupes. Obrigado eu pelo tempo dispendido e pelo comentário.
      Aquele abraço e boa serra d'arga

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